Por Manoel Cândido da Luz

25 de junho de 2011 em Folhetim

 

 

FOLHETIM 2

Uma história sobre Maria Beira

 

Por Manoel Cândido da Luz

 

Capítulo II

 

Dentre as muitas histórias que existem sobre Maria Beira uma me é inesquecível e acredito ser a que mais caracteriza a sua capacidade espetacular de fazer as pessoas rirem quando a ouvia.

Contava que logo depois que se casou com o “Seu Antônio Gonçalves (era assim que ela falava sobre o marido) foram morar numa casinha que ficava naquela parte que avança para o mar entre as duas pequenas praias situadas antes da chamada “Laje do Gato”.

Numa semana de trabuzana (vento sul forte com chuva miúda – naquela época o vento sul durava no mínimo três dias), o marido “Seu Antônio Gonçalves”, que tinha como única atividade a pescaria, ficou impossibilitado de sair para o mar e pescar com espinhéis. O jeito era ficar em casa e esperar a tempestade passar.

Não se tinha por costume guardar muito peixe para o consumo, exceto aqueles que eram “escalados” e colocados no varal, ao sol, para secar e depois defumar. Porém, naquela semana todo o estoque de peixe seco e defumado havia acabado. O remédio seria comprar algum tipo de “conduto” na venda do Cumpadre Isid (sogro do Cumpadre Girso).

Depois de cuidar dos afazeres matinais Maria Beira foi até a refalada “venda” e comprou uma “rodela de linguiça” para fazer o almoço, já que a “carne seca” (charque) era muito mais cara.

De volta para a casa, já quase ao meio-dia, passou de imediato a preparar a janta. (aqui um detalhe: na região, as refeições das famílias, naquela época, recebiam essas denominações: pela manhã – almoço; ao meio-dia – janta; no final da tarde – café; à noite – ceia).

Para render mais o “conduto” Maria Beira resolveu misturar a linguiça picada com ovos batidos e cebolinha verde para dar um paladar mais picante.

Enquanto isso, o marido “Seu Antônio Gonçalves” estava na praia, sobre as pedras, com um caniço tentando pegar algum peixe, pois nada mais tinha para fazer e passar o tempo. Mas naquele dia só estava pegando baiacu branco e cocoroca pequena que não dava para aproveitar.

Em casa Maria Beira atiçava o fogo com gravetos para que o feijão terminasse de cozinhar, enquanto que a mistura na frigideira também ia demorando a ficar pronta, pois o vento sul que entrava pela boca do cano devolvia a fumaça e abafava o fogo, fazendo com que Maria Beira ficasse irritada e com os olhos ardendo.

Assim o tempo ia passando e em meio a esse cenário, de repente, Maria Beira começou a ouvir gritos vindos da praia. A princípio não deu muita atenção, mas os gritos continuaram cada vez mais fortes: “Maria! Maria! Traz um balaio grande até aqui, mulher! E continuava: Ferrei um grande! Acho que é um baleeiro! (bagre grande e barrigudo) A janta e a ceia tão garantidos!

A empolgação dos gritos de “Seu Antônio Gonçalves” era tamanha que Maria Beira ficou atordoada, meia perdida. Não sabia o que devia fazer primeiro.   Correu para pegar o balaio, mas lembrou que a lingüiça com ovo estava quase pronta na frigideira e se demorasse poderia queimar. Ia voltar ao fogão quando escutou o marido dar uma sonora gargalhada e gritar, dizendo: “Joga essa porcaria de linguiça fora, Maria! Pode até dá pros bichos, mulher! Hoje nós vamos comer uma moqueca das boas!”

Como não era mulher de contrariar o marido, antes que escutasse o aviso pela segunda vez, tratou de arremessar a lingüiça com ovo na vasilha dos bichos de estimação – cachorro e gatos.

Cumprida a providência, agora era só levar o balaio para pegar o “grande peixe”. Já se achava escalando as pedras e visualizava a figura de seu marido segurando o caniço vergado, quando foi surpreendida por um outro grito, seguido de inúmeros xingamentos: “Raio dos inferno, Maria! Não precisa mais trazer o balaio. O istanqueiro abriu o anzoli e foi simbora! Fugiu o miserávi”. (Conclui na próxima postagem)

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