Por Manoel Cândido da Luz

16 de junho de 2011 em Folhetim

 

Marreco estréia no Daqui na Rede

com Folhetim sobre Maria Beira

 

Maria Beira era uma figura popular no distrito de Santo Antônio de Lisboa em meados do século passado, cuja memória foi resgatada por Manoel Cândido da Luz (Marreco). O conto marca sua estréia como escritor no Portal de Notícias Daqui na Rede. O trabalho será publicado em três capítulos.

 

 

Uma história sobre Maria Beira

 

Por Manoel Cândido da Luz

 

Capítulo I

 

Nos idos das décadas de 1950 e 1960, quando ainda se contava as horas pela posição da sombra sob o próprio corpo e se fazia a previsão do tempo olhando as nuvens ao amanhecer ou entardecer, na comunidade de Sambaqui uma certa senhora recebia muita atenção das poucas pessoas que moravam nesse lugarejo.

Seu verdadeiro nome desconheço, até pesquisei superficialmente, perguntando para uns e outros moradores atuais, mas não obtive sucesso nessa busca. Conhecida e respeitada como Maria Beira era figura popular em todo o Distrito de Santo Antônio de Lisboa.

Completamente analfabeta, mesmo assim era considerada parteira “das boas”. Contadora de histórias e de causos, astuta e dona de uma “ponta-de-língua” super afiada, não perdia a oportunidade de responder qualquer provocação com um belo palavrão, independentemente de quem a tivesse cutucado.

De tamanho minguado, sua aparência destoava da energia que possuía e todos os seus dias eram repletos de idas e vindas à Praia das Flores, por vezes para ver se o marido havia chegado de pescaria, em outras para atender algum chamado de vizinhos, porém o que mais lhe dava prazer era ir até a “venda do Cumpadre Girso” (saudoso e finado Gilson da Costa Xavier) e que depois passou para as mãos de “Seu Joãozinho” (que também já viajou para o Oriente eterno), para tomar um trago e comprar “fumo de corda” a fim de fazer um cigarro de palha de milho.

Sentada na areia da praia, pés descalços, com uma perna esticada e outra dobrada, cobertas pelas saias de algodão ou de chita que se prolongavam até os tornozelos, ficava pitando o seu palheiro enquanto conversava com quem estivesse ao seu redor, geralmente amigos e vizinhos.

Tratava a todos com respeito, de forma carinhosa – a sua maneira é claro, independentemente da condição social, sexo, idade, cor ou qualquer outro conceito. Tinha apreço e tratamento especial mesmo só por alguns amigos a quem os chamava de “Sinhô” e “Sinhá” ou então de “Cumpadre” e “Cumadre”.

Dentre todos eles destaco aqueles mais conhecidos: Cumpadre Gillson e Cumadre Ilda, Cumpadre Aníbal e Cumadre Iria, Cumpadre Rafael e Cumadre Nirce, Cumpadre Aldo e Cumadre Maria, Cumpadre Quido Maria e Cumadre Chiquinha, Cumpadre Ricardo, Cumpadre Oséias, Cumpadre Apolônio e Cumadre Nadira, Cumpadre João dos Santos e Cumadre Maria Salomé, Cumadre Hermínia, Sinhô Gentil, Cumpadre Nelson e Cumadre Olda, Cumpadre Nico Peres e Cumadre Maria, Cumpadre Vadinho e Cumadre Nera, Cumpadre Pepeco e Cumadre Dalva, e tantos outros personagens que moravam na Praia das Flores, na Praia do Fogo e em outras localidades, dos quais não me recordo agora.

Sinhô Berreta e Sinhô Davi, (falecidos Valdir Berreta e David Maes), embora fossem moradores de finais de semana da Praia das Flores eram também tratados assim pelo fato de serem comerciantes vindos da Capital e por isso despertavam prestígio nos nativos, inclusive de Maria Beira. Aliás, este último foi quem lhe deu e a seu segundo marido – “Seu Teodoro”- assistência e moradia até final de seus dias. (Continua)

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