Por Manoel Cândido da Luz

1 de julho de 2011 em Folhetim

 

 

Uma história sobre Maria Beira

 

Por Manoel Cândido da Luz

 

Capítulo III

 

Imediatamente a surpresa deu lugar à raiva em Maria Beira, não pela fuga do peixe, mas, principalmente, por tudo o que o marido havia determinado. E agora – perguntava-se – como poderia aproveitar a comida jogada fora? O que fazer? Não sobrou lingüiça nem ovo? O que fazer? – repetia.

Quase chorando, e em silêncio, olhava para a entrada da casa tentando ver se os bichos já haviam comido a lingüiça frita com ovos? Caminhou ligeira para verificar ao mesmo tempo em que a consciência lhe começava a atormentar.

Mesmo que os bichos ainda não tivessem devorado aquele “manjar” certamente que não teria coragem de comer depois de ter jogado na vasilha suja. Diachos! O que fazer? – exclamava seguidamente.

Com uma raiva tremenda crescida em sua cabeça a vontade agora era pegar tudo aquilo, mesmo que tivesse sujo, e colocar na mesa para o seu marido comer.

Uma luta intensa travou-se em sua mente. Raiva e fome, aumentando e não podia fazer nada. Olhou para onde havia depositado a fritada e constatou que não restava mais nada. O gato ainda passava a língua sobre os beiços aproveitando o sabor da iguaria.

Então desolada, parada junto a porta da cozinha, ficou olhando o marido que vinha em sua direção praguejando a falta de sorte na pescaria de caniço.

O estômago de Maria Beira já começava a fazer barulho pois, nessa lida toda, o sol já havia deitado para o lado no continente e isso queria dizer que o meio-dia ia longe.

A vontade que tinha era pegar a vara do caniço e partir a cabeça do marido ao meio. A lembrança da lingüiça frita com ovo e tempero aflorava em sua mente e isso lhe dava água na boca, fazendo aumentar, ainda mais, o vazio do estômago. Não tinha sobrado nem uma “isca” da lingüiça com ovo.

Lentamente foi-se agachando e, segurando no portal da cozinha deixou-se sentar na soleira da porta olhando a figura desengonçada de seu marido que, alheio aos seus pensamentos, estava parado a sua frente, xingando o peixe, a sorte, a tudo, e com certeza, contando com a janta já pronta para matar a fome.

E assim parado no pequeno terreiro, olhando de frente para Maria Beira, “Seu Antônio Gonçalves” jogou o caniço em cima do telhado da pequena casa e justificou-se: “Pois é, muié: um dia é do pescador, o outro é do peixe”!

E arrematou: “O remédio é nóis cume mesmo a linguiça cum ovo do Cumpadi Isid, ca graça do Sinhô Bom Deus!”

 

FIM

 

*

Pós-escrito

MARIA BEIRA

 

Prezado Celso,

com a disseminação das informações contidas na história da saudosa Maria Beira, obtive a grata satisfação de conhecer maiores detalhes sobre essa grande senhora que muito contribuiu com sua rude sabedoria de parteira àqueles a quem ajudou nascer, assim como às mães que foram salvas pela dedicação dessa inegável grande mulher.

O nosso grande, e em comum, amigo Sérgio Luiz Ferreira, ilustre professor de história que muito nos engrandece com suas pesquisas, como já é de seu costume, brindou-me com várias informações relacionadas à figura central da história narrada no portal DAQUI na Rede, dados esses que gostaria que fossem publicados juntamente com a edição do último capítulo do folhetim, cuja íntegra segue transcrita abaixo:

Deca, a título de contribuição, quero informar que Antônio Manoel Gonçalves (Antônio Beira), filho de Manoel José Gonçalves e de Cândida Bernardina de Braga, nascido a 17.11.1878, casou-se com Maria Virgínia da Silva (Maria Beira), filha de José Belém da Silva e de Virgínia Francisca da Silva, em 29.12.1907. No assento de casamento consta que ela teria 18 anos. Dessa forma, Maria Beira teria nascido em 1889. No assento de seu falecimento, em 24 de junho de 1980, há a informação de que tinha 91 anos, era parteira e segurada do INPS. O apelido Beira era do Antônio que acabou passando para ela também. O irmão de Antônio, André Manoel Gonçalves,casado com Rita Fidelis da Silva, também era chamado de André Beira. Sérgio Luiz Ferreira”.


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