Sobre a morte de Hernâni Donato

15 de março de 2013 em Rosana Bond

 

 

Hernâni Donato e um
pouco de seu legado

 

Por Rosana Bond*

 

!Hoje a coluna é toda dedicada a um amigo que se foi. Aos 90 de idade, faleceu em Sampa, o grande Hernâni Donato.
Entre a moçada atual, quase um desconhecido. Entre avós com 50 ou 60 anos, fãs de literatura histórica e cinema, quase um ídolo.
Afinal, pelo menos nessa turma de leitores/cinéfilos, quem nunca ouviu falar de O Caçador de Esmeraldas, livro que virou filme com Glória Menezes, Tarcísio Meira, Jofre Soares e Herson Capri ? Ou de Selva Trágica, idem obra escrita transformada em filmada por Roberto Farias, irmão do célebre Reginaldo? Ou ainda de Chão Bruto, idem, em versões lançadas nas telas em 1958 e 1976?
O criador das 3 peças, ou seja, autor dos livros e também dos roteiros para o cinema, o Hernâni.

 

!Embora importantes, as 3 são apenas gotas no dilúvio produtivo do amigo. Mais de 40 obras publicadas, e mais de 10 premiadas. É mole?
O paulista nascido em Botucatu, era um sujeito fecundo e múltiplo. Historiador, professor, jornalista, escritor, tradutor, roteirista. Ativo dirigente do IHGSP (Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, o mais destacado da América Latina), foi eleito anos atrás seu presidente de honra.

 

!Hernâni, porém, foi bem maior que as homenagens recebidas.
Admirador confesso da gente brasileira, fez questão de conhecer a cultura/história popular com humildade e aconchego. Colheu algodão durante um tempo; plantou chá; viveu com garimpeiros no Mato Grosso; organizou uma chácara agrícola comunitária; na juventude deixou o curso de Sociologia para aventurar, integrando-se a uma expedição que tentaria percorrer a milenar trilha do Peabiru até o Paraguai.
Desde aí um fiel apaixonado pela saga peabiruana, lançou o curto mas competente Sumé e Peabiru em 1997, livro “chiquitito pero cumplidor”, como costumam dizer os hermanos latinos. Jamais abandonou o interesse pelo tema, até o fim de seus dias.

 

!Foi justamente o Peabiru, caminho indígena que ligava o Atlântico ao Pacífico, que nos fez amigos 17 anos atrás.
Eu estudava o dito cujo e ia publicando livros, que eram comemorados pelo jovial Hernâni como se fossem seus. Torcida expressada em bilhetes com caligrafia caprichada (não usava computador em sua correspondência particular, por considerar uma deselegância), que me chegavam metodicamente após a leitura de cada novo trabalho lançado. Ou nos intervalos entre um e outro, com comentários adicionais.

 

!Não soube de sua morte.
Apenas estranhei o silêncio, após ter lhe enviado um exemplar do Volume 2 do História do Caminho de Peabiru. Ainda mais pelo livro tratar dos usuários incas do Caminho, um assunto que ele sonhava pesquisar de novo. Em nossos telefonemas dizia que ao fazer o Sumé e Peabiru muitas perguntas tinham permanecido abertas em sua cabeça.
Cadê o costumeiro bilhetinho?

 

!Telefonei domingo passado e a esposa Nelly atendeu, comovida.
Informou-me do falecimento, no final de novembro. Coração apertou e voz embargou. “Ele se foi ? Sério ?”
Nelly confirmou e agradeceu por eu ter ligado.
“Estou em dívida com você, me desculpe”.
Não entendi. Explicou.

 

!Hernâni recebeu o livro, levado por ela ao hospital, e foi o último que leu em vida.
Poucos dias depois, em meio à agonia do câncer, Nelly o flagrou gesticulando, como se estivesse “escrevendo no ar”.
Assustou-se, pensando que era um espasmo: “Pelo amor de Deus, homem, o que é isso??”
Não era nada, ele acalmou-a. Só estava rascunhando um bilhete. “Preciso dizer pra Rosana que seu livro é esplêndido. Essa menina é tremenda, Nelly. A cada vez se supera mais…”

 

!A esposa do amigo voltou a pedir desculpas. Ela planejou passar-me o recado, porém a chegada da morte, com todas suas consequências dolorosas e confusas, não permitiu.
Desliguei o telefone e fui dar uma respirada na varanda.
Uma mensagem escrita no ar…
Valeu, alma de menino! Tu é que eras tremendo!

 

 

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