Dentro das tensões na Festa do Divino

5 de setembro de 2013 em Festa do Divino 2013

A hierarquia católica nunca viu com bons olhos a Irmandade do Divino Espírito Santo de Santo Antônio de Lisboa. As diversas tentativas de implantar o CPC e retirar os poderes da Irmandade

Por Sérgio Luiz Ferreira*

A hierarquia da Igreja Católica sempre olhou com maus olhos as irmandades no Brasil. Muitas dessas irmandades tornaram-se verdadeiras empresas, e poderes paralelos, sobretudo nas cidades. Os padres em Santa Catarina, cuja maioria é de ascendência alemã ou italiana, colocam todas as irmandades no mesmo saco. Consideram que as irmandades não são tridentinas, no sentido da obediência incondicional à hierarquia da Igreja. E importante lembrar, que o pedido de criação da Irmandade do Divino Espírito Santo de Santo Antônio de Lisboa foi feito através de abaixo-assinado em 1911, quando o bispo de Florianópolis era Dom João Becker, gaúcho, filhos de alemães. A Irmandade só foi criada em 1927, quando já era arcebispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira, português de Vila Nova de Gaia.

Foto: Edson Luiz da Silva/Velho Bruxo. Arquivo: Daqui na Rede

Foto: Edson Luiz da Silva/Velho Bruxo. Arquivo: Daqui na Rede

Logo na primeira festa do Divino realizada após a criação da Irmandade, o padre italiano João Casale, quis saber o resultado financeiro da festa. A mesa diretora da Irmandade respondeu que isso não era da conta dele porque a Festa do Divino era uma festa particular. É assim mesmo nos Açores até hoje. A Festa do Divino é uma festa particular, bancada pelo imperador que se vira para conseguir financiá-la. Aqui em Santa Catarina também era assim.

Hoje em muitas comunidades, como Canasvieiras por exemplo, acontecem duas festas paralelas, uma festa do imperador (festeiro) e outra festa do CPC (Conselho de Pastoral da Comunidade). Há evento alusivos à festa que são de responsabilidade de um ou de outro, gastos que são de um ou de outro. Nos Açores até hoje, o padre ou o bispo só coroa o imperador na missa e ponto final. O clero nem acompanha o cortejo, o espera na porta da igreja e ali se despede ao final da missa.

A festa, que consiste uma refeição servida de graça aos participantes, é realizada na sede da banda filarmônica da freguesia, que se assemelha aos nossos salões paroquiais. Em Santo Antônio de Lisboa, ser imperador da Festa era coisa para rico, geralmente político. Assim foi até 1982, quando o imperador foi o intendente, João de Deus Sartorato, o seu Joca (1927-2000), que recebera a coroa do Deputado Federal, à época e hoje também, Esperidião Amin. Seu Joca quis passar a coroa para um deputado estadual. Altino Dealtino Cabral (1922-1999) tinha acabado de assumir a provedoria da Irmandade e não permitiu que isso acontecesse. Seu Joca passou a coroa para seu próprio filho, Jair Sartorato.

Aliás, nessa passagem, a coroa, que era do século XIX, caiu no chão. Meses depois ela foi furtada da Igreja e o Jair desistiu de fazer a Festa do Divino. Dessa forma, não tivemos os festejos em 1983. Seu Altino Cabral mandou o Chavo [Javier Caro] confeccionar uma coroa de latão e fez a Festa do Divino de 1984. Dali para frente, Santo Antônio inaugurou um novo jeito de fazer Festa do Divino. Não era mais necessário ser rico para fazer a festa, bastava participar da comunidade e ter amigos.

A comunidade, que antes só assistia a festa, começou a trabalhar para financiá-la. Em 1985, veio trabalhar em Santo Antônio o Padre Aquilino Antônio dos Santos. Até 1998, a escolha do imperador era feita pelo seu Altino, consultando os mais próximos da mesa diretora. Com o afastamento do seu Altino por doença, em 1998, seguido de sua morte, em 1999, o padre Aquilino começou a conduzir esse processo. O presidente da Irmandade, que é sempre o pároco, até 1998, não cuidava da organização da irmandade. Era o provedor quem cuidava de tudo juntamente com a diretoria da igreja, que não era composta só por membros da Irmandade. Houve um tempo que todo mundo que frequentava a igreja era da Irmandade (homens e algumas mulheres) ou do Apostolado da Oração (as mulheres).

Durante todo o tempo que o padre Aquilino esteve em Santo Antônio, 1985-2005, o pároco da paróquia São Francisco Xavier não teve ingerência sobre Santo Antônio. O pároco desde 1998 era o Padre Pedro Carlos Daboit, que assim que o padre Aquilino saiu de Santo Antônio veio com bastante sede ao pote, com vontade de trocar as lideranças da igreja. Primeiramente tirou Suzana Lisboa da Luz da presidência do apostolado. Assumiu em seu lugar Maria Flora Machado, que está no cargo até hoje. Em 2009, na semana anterior à posse de seu sucessor, padre Alcides, padre Pedro Daboit convocou uma assembleia da irmandade e tentou fazer uma eleição da diretoria da irmandade e propor um novo estatuto para a irmandade.

Ele não conseguiu fazer a eleição porque a assembleia decidiu fazer as alterações no estatuto antes. A intenção do padre era tirar o Gabriel [Vaz Pires] da provedoria da Irmandade. Padre Pedro tinha uma visão bastante equivocada da Festa do Divino. Nunca participou das novenas e da preparação da festa nas casas da comunidade e achava, como a maioria do clero, que Festa do Divino é pura ostentação e exterioridade. A Festa do Divino tinha, desde 1994, quando Antônio Luiz Campos, o Toía, foi imperador, uma comissão organizadora. Esta comissão fez com que a Festa do Divino de Santo Antônio se tornasse referência no assunto. A Festa passou a durar uma semana e a incluir eventos culturais, como a farinhada que acontece desde 1998. Padre Pedro Daboit queria implantar o CPC a todo custo. O documento da Conferência de Aparecida de 2007 já aponta que a Igreja deve respeitar a cultura e a história das comunidades.

Foto: Edson Luiz da Silva/Velho Bruxo. Arquivo: Daqui na Rede

Foto: Edson Luiz da Silva/Velho Bruxo. Arquivo: Daqui na Rede

Não seria nenhuma ofensa à hierarquia da Igreja se em Santo Antônio de Lisboa o pároco decidisse que as questões financeiras e patrimoniais fossem geridas pela Irmandade do Divino Espírito Santo e as questões pastorais pelo Conselho de Pastoral da Comunidade. Hoje estamos com as atribuições da Irmandade esvaziadas. A partir desse ano, ela só cuida do cemitério e da Festa do Divino. Acabamos tendo duplo ou triplo comando. Hoje temos poucas pessoas participando na comunidade católica. Criou-se uma celeuma desnecessária. Seria muito prudente que os padres revissem sua posição e respeitassem a comunidade e Irmandade. Afinal, a Irmandade tem 86 anos de serviços prestados a Santo Antônio. E sempre desempenhou muito bem o seu papel de guardião dos bens da Igreja. Vamos deixar o CPC cuidar daquilo que é mais importante para a igreja, a pastoral, a evangelização.

A partir desse ano, Santo Antônio deixou de ter missas no cair da tarde de sábado, tradição que tínhamos desde 1965. Segundo o padre, porque ficava uma missa espremida entre dois casamentos…. Para não atrapalhar casamentos de grã finos, não temos mais missas aos sábados… E assim vamos perdendo nossas referências, nossas tradições.

Afinal de contas, um povo que tem tanta devoção ao Divino Espírito Santo só tem a perder com tanta divisão. Vamos celebrar a solidariedade e a partilha, frutos magnânimos do Divino Espírito Santo.

*Sérgio Luiz Ferreira é historiador e professor universitário, irmão da Irmandade do Divino Espírito Santo de Santo Antônio de Lisboa.

 

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