Nas terras de Shiva (9): o bronzeado de Dalai Lama

18 de julho de 2014 em Galeria de imagens, NAS TERRAS DE SHIVA

Edu e Anita. Foto: Edu Cavalcanti.

Edu e Anita. Foto: Edu Cavalcanti.

Os jornalistas Edu Cavalcanti e Anita Martins, residentes em Sambaqui (Florianópolis-SC), estão na cidade de Leh, estado de Jammu e Caxemira, extremo Norte indiano, entre as cordilheiras do Karakoram e do Himalaia, no vale superior do rio Indo. Enquanto se adaptavam à altitude de 3.524 metros, participaram do 33º Kalachakra, festival budista, com a presença de Dalai Lama, líder espiritual do Tibete, e cerca de 120 mil pessoas de diversos países. Os dois permanecem na região até agosto, mês com muitas datas marcantes: aniversário de dois anos de viagem, fim da estada na Índia e partida para a Austrália.

 

Rumo ao Ladack. Foto: Edu Cavalcanti.

Rumo ao Ladack. Foto: Edu Cavalcanti.

A jornada até Leh

Anita conta que a viagem de dois dias de Manali, no estado de Himachal Pradesh, até Leh, foi fantástica. Levaram 10 horas de Manali a Keylong, mais 16 horas de Keylong a Leh, passando por glaciares, picos nevados, lugares desabitados, montanhas com árvores ou desérticas, diversos lagos, vários congelados. “Lindo mesmo”, diz Anita. “Chorei duas vezes de emoção.”

De Manali a Keylong, seguiram sem poltrona, sentados no chão ou em pé, “mas foi bom, pois pudemos apreciar bem a paisagem”. Fizeram amizade com quatro tibetanas, três delas freiras e a outra, mãe de um menino. Elas indicaram uma planta para colocar no nariz e conter os efeitos da altitude.

“O ônibus ia parando para café da manhã, chá, almoço, mais chá e para o uso de sanitários.” Num determinado ponto do caminho, a altitude foi de 5.300 metros. A falta de oxigênio é clara, causando dificuldades para encher os pulmões de ar e cansaço ao caminhar.

“Quando chegamos em Leh estávamos tão cansados que aceitamos a primeira oferta de guest house que nos fizeram”, tendo sido bem recebidos. “Nos trouxeram até comida no quarto.”

 

Em Leh. Foto: Edu Cavalcanti.

Em Leh. Foto: Edu Cavalcanti.

Os primeiros dias

Leh, cheia de restaurantes, hotéis, cafés e lojas, está repleta de turistas, o que é comum no verão, mas não tanto quanto este ano por causa do Kalachakra. “Já conseguimos nossas credenciais para acompanhar o evento”, com tradução simultânea via rádio em vários idiomas, inclusive português.

Anita está cansada, fala devagar e pausado. Edu também sente os efeitos da altitude, tendo enjôos. “Quando a gente está na rua e passa algum carro jogando fumaça a dificuldade aumenta”, diz. “Ainda bem que estamos bem distantes da cidade.” Ela e Edu estão na casa de uma família ladakhi com o amigo Alex Jensen, que trabalha para a Sociedade Internacional para Ecologia e Cultura (ISEC).

Na propriedade, há uma horta orgânica, xodó da mãe da família. “Quando precisamos de legumes para cozinhar, descemos e pedimos para a Amale (mãe na língua ladakhi) colher pra gente. Ela também tira leite de uma vaquinha que tem e faz manteiga. E tem dois bezerrinhos fofos aqui. Toda vez que chegamos em casa, paramos pra conversar com eles e fazer carinho.”

Na região, há muito damasco, vacas de leite (manteiga, queijo) e cevada, da qual se faz farinha e cerveja. Esses alimentos eram, até pouco tempo, a base alimentar dos ladakhis. Atualmente, a variedade é maior, mas somente porque dezenas de caminhões, abastecidos com combustível subsidiado, percorrem diariamente as estradas da área, também subsidiadas, causando poluição e trazendo alimentos industrializados aparentemente baratos para competir com a produção orgânica local. (Conversa pelo Skype na manhã de domingo, 29.6.2014)

 

Dalai Lama no Ladack. Foto: Edu Cavalcanti.

Dalai Lama no Ladack. Foto: Edu Cavalcanti.

Com a palavra, Sua santidade, o Dalai Lama

Kalachakra é um conjunto de práticas budistas para levar à iluminação e uma cerimônia de iniciação a essas práticas para quem já segue o Budismo. Foi esse trabalho que Dalai Lama veio realizar em Ladakh. Não se sabe quantos dos 120 mil participantes do evento foram iniciados, pois essa é uma escolha individual, baseada em uma autoanálise sobre o quão preparado se está.

O processo incluiu meditações, visualizações e ensinamentos, abertos a quem estivesse interessado. Um dos temas centrais das aulas dadas por Dalai Lama foi o vazio da existência inerente, um conceito difícil de ser entendido por ocidentais, mas já investigado pela física quântica. A ideia é que nada existe objetivamente. “Dizer que o dedo mindinho é curto ou longo só é possível por meio da comparação com outros dedos”, exemplificou. Diante de muitos rostos confusos, Dalai Lama completou: “Com estudos e análises profundas, é possível compreender. Não desanimem.”

O comentário vai ao encontro de um dos grandes pilares do budismo: o combate à ignorância. “A fé tem que ser aliada à sabedoria, senão pode ser usada como ferramenta para grupos políticos, grupos que agem em nome da religião.”

O bom humor de Dalai Lama costurou toda a seriedade dos ensinamentos. No seu discurso final, por exemplo, o líder espiritual brincou com os ocidentais presentes. “Vocês normalmente vão à praia para se bronzear. Vindo para Ladakh, vocês obtiveram benefício dobrado. Além do bronzeado, aprenderam sobre Budismo”. (Por Anita Martins)

Saiba mais no site oficial do 33º Kalachakra.

 

Anita e Edu em Leh com amigos. Foto: Edu Cavalcanti.

Anita e Edu em Leh com amigos. Foto: Edu Cavalcanti.

Próximos passos

Anita e Edu vão participar do programa “Aprendendo com Ladakh”, promovido pela ISEC. Durante uma semana, vão ficar hospedados com uma família de agricultores em uma vila ainda não escolhida. Aprenderão suas técnicas de cultivo enquanto os ajudam na época mais atribulada do ano. Ladakh fica debaixo de neve e gelo a maior parte do ano. Portanto, nos quatro ou cinco meses de verão, precisam plantar, colher e estocar comida para todo o inverno. (Conversa pelo Skype, 1.7.2014)

Na metade de agosto, Anita e Edu seguem para a Austrália. Em setembro, vêm para o Brasil e, em seguida, para alguns países da América Latina.

 

NAS ALTURAS DO LADACK, por Edu Cavalcanti. Especial para o Daqui na Rede.

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