Nas terras de Shiva (Fim) – Vasculhando o Ladakh

17 de agosto de 2014 em Galeria de imagens, NAS TERRAS DE SHIVA

Monastério em Diskit, interior do Ladakh. Fotos: Edu Cavalcanti.

Monastério em Diskit, interior do Ladakh. Foto: Edu Cavalcanti.

Na narrativa anterior falamos da participação de Edu Cavalcanti e Anita Martins no 33º Kalachakra, festival budista, com a presença de Dalai Lama. E que preparavam a participação no programa “Aprendendo com Ladakh”, da Sociedade Internacional para a Ecologia e a Cultura (ISEC), atividade repleta de convívios, caronas, aventuras, trilhas, fome, experiências únicas e uma notícia triste do Brasil.

NAS PROFUNDEZAS DO LADAKH

Primeiro visitaram a vila de Hemis Shuk Pachan, onde permaneceram poucos dias. Retornando a Leh conseguiram as autorizações oficiais para chegar à vila de Hunder Dok. “Saindo de Leh, indo pro interior de Ladakh. Uma semana, pelo menos, sem internet ou telefone, amigos”, anunciou Anita no Face com versão em inglês: “Leaving Leh and heading to the countryside of Ladakh. We’ll be without internet or phone for, at least, a week, people”.

Seguiram a bordo de uma pequena van repleta de turistas na rota Leh-Distik, com as autorizações e passaportes em mãos, documentos solicitados nas barreiras de controle no interior do Ladakh. No meio do caminho havia o Khardung Pass, com trechos a 5.602 metros de altitude, o mais alto do mundo, transposto sem traumas, mas que os deixou famintos. “Comemos um pão com omelete e chá quente na chegada, parecia a melhor ceia de toda a vida”. A paisagem em todo o percurso é de tirar o fôlego, lagos, montanhas nevadas, manadas de gado tibetano (yak). “Vista incomparável, paisagens inacreditáveis”.

Acampados no Himalaia

Em Distik o casal de jornalistas de Sambaqui (Florianópolis-SC) tentou um ônibus para o local de destino, a vila de Hunder Dok, mas não havia. Nem táxi, muito menos restaurantes. Uma alma caridosa os informou que estava rolando uma cerimônia budista num templo próximo, onde haveria almoço comunitário, para onde se dirigiram. Bem recebidos no local, puderam se alimentar e descansar um pouco. Edu seguiu até um armazém onde comprou miojo, chocolate e outros alimentos. Depois seguiram viagem.

Na trilha para Hunder Dok.

Na trilha para Hunder Dok. Foto: Edu Cavalcanti.

Duas caronas depois alcançaram o início da trilha que conduz a Hunder Dok. Agora não havia escapatória, sebo nas canelas, sempre margeando o rio Nubra. Uma caverna serviu de abrigo. Mais adiante passaram a coletar bosta seca de gado e galhos de árvores para a fogueira da janta. Acharam um local ideal para acampar num remanso do rio, onde as águas depositavam madeiras secas. Antes de se enfiarem nos sacos de dormir sobre colchonetes, prepararam o miojo em uma pequena lata de leite condensado que haviam encontrado e lavado em Distik. Caiu um breve chuvisco, mas logo as nuvens se afastaram e eles puderam dormir sossegados olhando as estrelas.

 

Fazendo manteiga

O último trecho antes da chegada a Hunder Dok era bem íngreme, vencido sob o calor escaldante do sol e a custa de muito cansaço. Foram recebidos no alto por outras boas almas, abrigo, chá, hospedagem numa homestay improvisada. Retomaram a trilha no dia seguinte e chegaram ao destino com facilidade. Após contato e rápida amizade com a professora da escola e a farmacêutica da unidade local de saúde, chegaram à casa da família onde iam permanecer: o pai (acho-le), viúvo, com o filho de 10 anos (nono), o avô (meme-le) e a avó (ani-le), dedicados aos trabalhos rurais. Anita passou muito tempo com a avó da família, misturando algumas palavras de ladakhi que ela aprendeu com o pouco do inglês da mulher, que lhe mostrou plantas e flores, e ensinou algumas palavras em ladakhi. Edu brincou muito com o menino, usando arco e flecha usadas em caçadas no passado.

"Tentando tirar leite, mas era muito lenta e fui tirada da tarefa. Fiquei mais na fazeção de manteiga mesmo". (Anita).

“Tentando tirar leite, mas era muito lenta e fui tirada da tarefa. Fiquei mais na fazeção de manteiga mesmo”. (Anita). Foto: Edu Cavalcanti.

Anita até que tentou tirar leite da vaca da família, mas a ausência de habilidade fez o animal se arrenegar, levando a jornalista a se consolar com a fabricação de manteiga. “É preciso colocar leite num tubo de madeira e chacoalhar por uns 40 minutos”, lembra. A manteiga que se forma na parte de cima é retirada com uma colher, lavada diversas vezes na água gelada que desce do Himalaia. Nada vai fora. O que não é usado na manteiga vira iogurte ou queijo semelhante a ricota. Uma parte desse queijo é secado ao sol para ser usado em sopas no inverno, quando o solo permanece congelado meses seguidos. Nem soro é desperdiçado, virando alimentos para o gado e tomado.

 

"Nossa família em Ladakh, com quem passamos uma semana como parte do programa Aprendendo com Ladakh". (Anita)

“Nossa família em Ladakh, com quem passamos uma semana como parte do programa Aprendendo com Ladakh”. (Anita). Foto: Edu Cavalcanti.

Universo cultural

Um imenso e complexo sistema de irrigação com as águas do degelo anual permite as lavouras naquela região árida. Cultivam muita cevada e alfafa para o gado. Como os jovens locais preferem se aventurar em cidades maiores, as colheitas são feitas por trabalhadores nepaleses contratados por temporada na época das colheitas. Usam o pouco dinheiro obtido dos poucos turistas para pagar os serviços. “Esse tipo de turista vê as populações locais como parte da paisagem, mas integrado ao programa da ISEC, podemos conhecer essas pessoas de perto, conectadas ao seu mundo cultural”, comenta Anita.

A cada duas semanas o pai da família vai a Distik comprar ovo, açúcar e chá. O chá caseiro vem do soro do leite e preparado com manteiga e sal, “muito nutritivo”. Foi numa dessas que eles aproveitaram e iniciaram o retorno. A ladeira final que fora vencida em cinco horas e meia na subida, rendeu três horas na descida. Para chegar a Distik pegaram uma lotação, depois carona gratuita em um microônibus de turistas indianos em visita a um templo budista, chegando de volta a Leh.

A triste notícia

Retornaram de Hunder Dok no dia 5 de agosto. Anita entrou no Face, viu a foto da mãe num contraluz de entardecer na Ponta do Sambaqui e se deparou com a notícia da morte de seu avô (nono) materno, Genuino Grando (Moro), um dia antes, no município de Guaraciaba. “Pensamos e falamos muito do nono onde estávamos”, disse no retorno à Leh. Lá, o filho mais moço da casa que aqui chamamos caçula, denominam nono.

No Skype. Foto: Celso Martins.

No Skype. Foto: Celso Martins.

“Explicamos isso a eles. Na casa em que ficamos permanecemos a maior parte do tempo com o avô e a avó da família”, recorda. “Acordávamos às 6 horas para tirar leite da vaca, depois fazer manteiga e com o que sobrava queijo. Tudo isso fazia lembrar a casa do nono em Guaraciaba. Acho que foi até uma celebração ao nono”. Um dos trabalhos de curso de Anita no Jornalismo da UFSC foi sobre a chegada dos primeiros imigrantes de origem italiana e alemã, vindos do Rio Grande do Sul para Guaraciaba. A narrativa é centrada no casal Moro e Irisena Ritter Grando (dona Sena).

A conversa com Anita pelo Skype começou por volta das 13 horas na última terça-feira (5.8), uma hora antes do início do sepultamento do avô em Guaraciaba. Ela telefonou para a mãe, Margaret, que estava no velório. As duas conversaram por poucos minutos. (6.8.2014)

Operação retorno

Anita e Edu permaneceram em Leh até o último dia 8 de agosto, participando de um workshop organizado pela ISEC. Depois embarcaram num ônibus de linha através da afamada rodovia Leh-Manalli, tida entre as mais perigosas do mundo, parando para pernoite em Keylong.

No dia 12 de agosto estavam em Manali, numa pousada rodeada de árvores, algumas frutíferas (maçãs), um rio correndo na parte de trás da casa e no fundo as montanhas cobertas de neve.

O último rickshaw em Dheli (Índia), um dos principais meios de transporte da população. Foto: Edu Cavalcanti.

O último rickshaw em Dheli (Índia), um dos principais meios de transporte da população. Foto: Edu Cavalcanti.

Sexta-feira (15.8) chegaram a Delhi, cidade que em 2011 tinha mais 11 milhões de habitantes, quase o dobro da população catarinense de 2013. A densidade populacional é de 11.297 hab/km², contra os 69,3 hab/km² de Santa Catarina.

Ou seja, deixaram as pacatas vilas e as cidades de porte pequeno e médio para ingressar numa metrópole, a segunda maior cidade da Índia. Chegaram no Dia da Independência, a urbe em festa. A primeira imagem foi a de centenas de crianças soltando pipas e pandorgas no caminho. “A boa fama do metrô daqui se confirmou: excelente qualidade, não tem lixo, super rápido”.

Rumo a Byron Bay

Neste domingo (17.8) os jornalistas Edu Cavalcanti e Anita Martins deixaram a Índia rumo à Austrália. Embarcaram às 23 horas em Delhi num vôo da Malaysia Airlines com escala em Kuala Lumpur (Malásia). Desembarcam em Brisbane, no estado de Queensland, distante cerca de 163 quilômetros do destino final, Byron Bay, Nova Gales do Sul. Chegam ao Brasil nos primeiros dias de setembro, seguindo viagem até o Uruguai, Argentina, Perú e Chile, acompanhando o australiano Warwick Brown. Nos primeiros dias de novembro eles desfazem as malas em Florianópolis.

IMAGENS DO LADAKH E OUTRAS AVULSAS, por Edu Cavalcanti (Especial para o Daqui na Rede).

 

 

 

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