EUA costa a costa (2). Economia da Felicidade.

11 de março de 2015 em EUA Costa a Costa, Seções

Portland (Oregon) recebe conferência Economia da Felicidade, e a gente

 

Por Anita Martins e Edu Cavalcanti*

 

Charles Eisenstein fala na Conferência. Foto: Edu Cavalcanti.

Charles Eisenstein fala na Conferência. Foto: Edu Cavalcanti.

Nossa jornada pelos Estados Unidos começou. A primeira parada foi na cidade de Portland, estado do Oregon, onde participamos da conferência “Economia da Felicidade”, promovida pela organização sem fins lucrativos Local Futures. Esse é o quinto evento da série, cujo objetivo é divulgar informações sobre os efeitos destrutivos do atual sistema econômico globalizado e os benefícios que uma economia majoritariamente localizada traria para o planeta como um todo, incluindo, claro, os seres humanos.

 

Camila

Entre os especialistas locais e de vários países, como Canadá, Nigéria, Índia e Austrália, estava a brasileira querida Camila Moreno, que trabalha com movimentos sociais na América Latina e tem estudado capitalismo verde nos últimos anos. Em seu painel, Camila contou que assistiu uma apresentação na conferência do clima da ONU de 2013 na qual o palestrante pulava de alegria e dizia: “Todo mundo falou que era impossível. Mas nós conseguimos. Nós criamos o mercado mais contraintuitivo do mundo. Carbono é uma commodity que você não pode ver, não pode cheirar, não pode tocar, mas está lá”. Ela, sentada, tremia de indignação. “Nós precisamos entender como esses slogans legais que surgem, se encaixam na arquitetura econômica global. Para vender carbono, você precisa ser dono do carbono. Então, nós estamos absorvendo culturalmente a ideia de que carbono pode ser propriedade privada, assim como já aconteceu com a terra e a água. E agora não é só o carbono. O carbono é uma pequena parte de um processo muito maior de monetarização da natureza.”

Natural de Porto Alegre, Camila é doutoranda em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Eu e Edu a conhecemos na conferência “Economia da Felicidade” de Bangalore, Índia, a primeira da qual nós três participamos. Que risada gostosa e que generosidade – me deu até um sabão de coco vindo direto da terrinha, coisa que não via desde o início da nossa viagem, quase dois anos antes. Muita gente, aliás, ficou encantada com Camila, com a quantidade de informação que ela trouxe, com a clareza da sua visão de mundo, com o engajamento político tão singular dos latino americanos.

 

Bayo Akomolafe e Manish Jain. Foto: Edu Cavalcanti.

Bayo Akomolafe e Manish Jain. Foto: Edu Cavalcanti.

Manish

Voltando a Portland, o indiano Manish Jain, coordenador do Shikshantar, Instituto do povo para repensar educação e desenvolvimento (em tradução livre), também impactou pela contundência e coragem de seu discurso. “Minha jornada me levou de um momento no qual eu acreditava que a escolarização moderna era a solução para todos os problemas do mundo – a um momento no qual eu conseguia vê-la como uma das raízes do problema. Eu pensava que o sistema educacional estava quebrado e que precisávamos consertá-lo. Ao longo dos anos, entendi que é uma máquina que funciona muito bem para destruir a consciência humana, as conexões profundas que os seres humanos podem estabelecer e as diversificadas formas de criatividade humana. Hoje, eu gostaria que vocês considerassem a possibilidade de que a escolarização moderna é um dos maiores crimes contra a humanidade.”

 

As mulheres que fizeram a conferência acontecer. Da esquerda para a direita, Helena Norberg-Hodge, Anja Lyngbaek, Kristen Steele e Victoria Clarke. Foto: Edu Cavalcanti.

As mulheres que fizeram a conferência acontecer. Da esquerda para a direita, Helena Norberg-Hodge, Anja Lyngbaek, Kristen Steele e Victoria Clarke. Foto: Edu Cavalcanti.

Helena

A fundadora e diretora da Local Futures, Helena Norberg-Hodge, abriu e fechou a conferência, sempre convidando a plateia a enxergar os problemas do mundo de forma mais holística e dar especial atenção ao fato do atual sistema econômico – com governos controlados por grandes corporações, com a noção de desenvolvimento e crescimento a qualquer custo, com o consumismo massivo que está acabando com os recursos naturais do planeta etc – estar na raiz de praticamente todas essas questões.

 

Cobertura

Bayo Akomolafe, etnopsicoterapeuta da Nigéria, trouxe sua sensibilidade e fala poética para a defesa da nossa reconexão com o todo, do entendimento de que a terra é viva e deve ser respeitada como um poderoso agente de mudança. Charles Eisenstein, conhecido escritor e palestrante americano, e amigo de Bayo, falou sobre a transição que vivemos da velha narrativa de escassez, dominação e separação para a nova narrativa de abundância, cooperação e conexão.

Teve ainda Ellen Brown sobre como bancos locais podem criar riqueza real em vez da atual riqueza especulativa, Carol Black sobre espaços locais de aprendizado, Derek Rasmussen sobre sabedorias indígenas, Sandra Lubarsky sobre a importância da beleza como um conceito amplo, Janelle Orsi sobre aspectos legais da localização, Donnie Maclurcan sobre o mundo sem fins lucrativos, e tantos outros. Em breve, vídeos dessas falas estarão disponíveis no site da Local Futures. Só estamos terminando de editá-los.

 

Primavera chegando em Portland. Foto: Anita Martins.

Primavera chegando em Portland. Foto: Anita Martins.

Terreno fértil a novas ideias

Portland parece o lugar ideal para acolher um evento como esse, não tanto por precisar, mas por já estar tão aberta ao tema. A cidade tem uma das economias locais mais fortes do mundo. Nota-se por todo lado: restaurantes que utilizam somente ingredientes orgânicos produzidos localmente; supermercados cuja maior parte dos produtos vem de Portland, ou do estado do Oregon; cooperativas de agricultores e consumidores locais; bancos locais; hortas comunitárias; revistas e jornais gratuitos sobre economia local; prefeitura engajada em apoiar negócios locais; até cartão de fidelidade dos estabelecimentos locais para juntar pontos.

São tantas as iniciativas. Mesmo assim, Helena diz que esse é apenas o começo, que ainda há muito trabalho a ser feito. Pelo menos, boa parte da população já entendeu que dinheiro produzido no lugar pode ficar no lugar, beneficiando a todos. O economista Michael Shuman, que também participou da conferência, explica que, quando se compra um produto local, a cidade ganha três vezes mais recursos e mais empregos do que se o mesmo produto fosse comprado de uma empresa multinacional.

Em Portland (Skype). Foto: Celso Martins.

Em Portland (Skype). Foto: Celso Martins.

Eu e Edu estamos fascinados e colhendo um monte de exemplos inspiradores para levar na bagagem de volta para casa. Além disso, a cidade é linda, muito verde, agora com a proximidade da primavera está cheia de árvores florindo. O transporte público é bom. As pessoas são simpáticas. Dizem até que Portland tem muitos moradores de rua porque eles vêm pra cá justamente por serem melhor tratados que em outros lugares.

 

*Anita Martins e Edu Cavalcanti são jornalistas brasileiros, residentes em Sambaqui (Florianópolis-SC).

 

 

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