EUA costa a costa (3): A solidariedade do viajante

1 de abril de 2015 em EUA Costa a Costa, Galeria de imagens

Na estrada. Foto: Edu Cavalcanti.

Na estrada. Foto: Edu Cavalcanti.

Por Anita Martins (texto), Edu Cavalcanti e Jesse Giotti (fotos). Especial para o Daqui na Rede.

 

Para encontrar hospedagem para os nossos três primeiros dias em Portland, recorremos ao Couch Surfing (CS), uma rede social de viajantes totalmente baseada na confiança e solidariedade. No site, você pode oferecer a sua casa para viajantes ficarem hospedados, pedir para ficar na casa de alguém ou somente se propor a mostrar sua cidade a um visitante.

Antes de começar a acionar a rede, porém, você precisa preencher um perfil bem detalhado, com missão atual de vida, interesses, filmes, músicas, livros, uma coisa incrível que já fez, o que pode ensinar, aprender e compartilhar. Diferente do que acontece em outras redes sociais, as pessoas, sim, escrevem em todos os campos, principalmente porque essas informações vão ajudá-las a decidir para quem pedir abrigo ou quem aceitar como hóspede.

Além disso, você pode ser um membro verificado, ou seja, o CS vai mandar uma carta para a sua residência com um código para checar se você mora onde diz que mora. É uma segurança para todos os envolvidos. Em geral, eu só lido com membros verificados. Fora isso, na página de cada pessoa, há um espaço de avaliação. Quem te recebeu pode analisar como foi a estada – positiva, negativa ou neutra – e escrever um depoimento. Essa é outra ferramenta que eu uso muito.

Anita. Foto: Celso Martins.

Anita. Foto: Celso Martins.

Pois foi nessa rede que encontramos o casal Judith e Page, ela australiana, ele norte-americano, que aceitaram nos receber na nossa chegada aos Estados Unidos. Ambos estão na faixa dos 70 anos, se conheceram quatro anos atrás e se apaixonaram. Agora, moram juntos. Logo que chegamos, Judith nos contou que muitos amigos não entendem como ela pode receber desconhecidos em sua casa. “Quando eu tinha 20 e poucos anos, viajei de carona pela Europa, com uma amiga. Tínhamos pouquíssimo dinheiro e ficávamos hospedadas nas casas das pessoas que nos ofereciam abrigo. Sinto que agora é a minha hora de retribuir.”

 

Amigos de estrada

"À direita, nosso querido amigo James, e à esquerda o rapaz que nos deu carona para Bend". Foto: Edu Cavalcanti.

“À direita, nosso querido amigo James, e à esquerda o rapaz que nos deu carona para Bend”. Foto: Edu Cavalcanti.

Conhecemos James em 2014. Magro, com a barba longa, o nariz queimado pelo sol, a boca rachada pelo frio, James chegou na capital de Ladakh, Leh, no extremo norte da Índia, depois de uma trilha de sete dias pelos Himalaias. Com o amigo Alex, que estava com outros dois amigos, eu e Edu, deu fim à dieta forçada de castanhas e pequenas porções de macarrão instantâneo e comeu a janta dos justos. Havia caminhado sozinho, seguindo os locais, de longe, a partir das 4h30 de todas as manhãs. Um dia, dormiu demais e saiu da área de acampamento apenas às 6h30. Era tempo suficiente para o calor aumentar e derreter parcialmente glaciares que ele teria de atravessar. Já tendo guiado viagens e liderado sessões de terapia ao ar livre, James sabia que a travessia seria perigosa e acionou seus mentores espirituais. A ajuda veio na forma de um cachorro, que o guiou por uma ponte de gelo que passava por cima de um rio.

Em Leh, passou um tempo na mesma casa onde estávamos hospedados. Tocou composições próprias no ukalele. Reencontrou “O Presente”, coletânea de poesias do persa Hafiz, livro que havia sido um fiel companheiro nos três anos de viagem que completava ali. Comeu bem, descansou, fez pequenos passeios, meditou e percebeu que era hora de voltar para casa.

Em oito dias, estava embarcando rumo aos Estados Unidos. Assim que chegou, foi para Bend, comunidade de 80 mil habitantes na qual viveu 13 anos. Sua história com o lugar começou no ano em que passou viajando de carona pelo país. Parou quatro vezes em Bend, e todas as vezes alguém lhe ofereceu abrigo e uma refeição. Pensou que esse seria um bom local para morar.

 

Um teto

"A casa onde James está morando e nos recebeu". Fotos: Edu Cavalcanti.

“A casa onde James está morando e nos recebeu”. Fotos: Edu Cavalcanti.

Desta vez, porém, depois de algumas semanas, sentiu-se chamado por Portland, a maior cidade do estado do Oregon, cuja metade do território é abençoada por florestas úmidas e nubladas, e onde estão seus pais e seus avós vivos. Tudo confluiu para que a mudança acontecesse. Uma médica conhecida precisou passar dois meses fora e pediu para James cuidar de sua casa. Esse período aumentou para oito meses, e a proprietária pediu que ele alugasse os quartos. Assim, ela ganharia e ele também, sendo pago para gerenciar a moradia. Agora, ele divide a casa com uma cadela linda chamada Simone e mais três pessoas. Ou melhor, mais seis.

"Janela da casa de James, na frente da qual tomávamos café todos os dias e víamos esquilos saracoteando na árvore. Desafio: ache o esquilo na foto". Foto: Edu Cavalcanti.

“Janela da casa de James, na frente da qual tomávamos café todos os dias e víamos esquilos saracoteando na árvore. Desafio: ache o esquilo na foto”. Foto: Edu Cavalcanti.

A convite do James, é debaixo desse teto que eu, Edu e, há poucos dias atrás, nosso amado amigo Jessé Giotti ficamos. Na primeira manhã, fomos acordados com mingau, o que volta e meia se repete, esquentando nossos corações. “Podem continuar aqui. Tenho falado com o pessoal e tá todo mundo feliz com vocês aqui”, reafirmou ele ontem. E o lugar é uma maravilha. Fora do centro de Portland, mas perto de uma estação de trem. Num bairro residencial, cheio de pinheiros nativos, esquilos frenéticos, quintais bem cuidados, casas de filme. E ainda tem o amor, o amor que James expele pelos poros. Cada abraço é um super abraço. Cada encontro é acompanhado de um atencioso “Como você tá?” ou “Como foi o seu dia?”. Cada conversa gera uma reflexão.

 

Esticada à Bend

Bend. Foto: Jesse Giotti.

Bend. Foto: Jesse Giotti.

Hoje, esse amor ainda veio na forma de pão doce de canela que sobrou no café onde ele trabalha. Semana passada se materializou numa viagem a Bend que ele mesmo organizou, pelo puro prazer de, desta vez, ser “o local, aquele que pode revelar lugares secretos à visitantes”. James descolou uma carona para nós quatro em um site de classificados. As camas quentinhas foram em uma casa da qual ele também foi tomar conta por quatro dias. Já na chegada, ele nos levou ao parque do centro da cidade, com um lago espelhado e mansões de um milhão de dólares ao redor, um fenômeno recente. No dia seguinte, caminhamos à beira do rio Deschutes, em meio a uma floresta de pinheiros – que, por serem nativos, aqui permitem a existência de outras espécies -, com alguma neve pelo chão, com memórias risonhas e memórias sofridas pairando pelo ar.

Bend. Foto: Jesse Giotti.

Bend. Foto: Jesse Giotti.

O espetáculo cênico veio dois dias depois, na ida a Smith Rock, parque estadual em uma região alta e desértica. Em três horas de trilha, subimos penhascos de rochas vulcânicas como basalto e tufo. Muitos eram os escaladores – e quanto Edu desejou estar entre eles, mas não trouxe a sapatilha de escalada na mochila. Havia árvores chamadas Juniper, cujas amoras servem para produzir gim, e pinheiros do tipo Ponderosa, com caule avermelhado e de cheiro doce. Arbustos de sálvia selvagem estavam por todo lado, e James contou que suas folhas secas são queimadas em cerimônias indígenas de purificação. Águias e falcões voavam alto, ambos considerados animais de poder pelos nativos americanos. Para fechar o dia, depois da caminhada, tomamos sorvete de huckleberry, frutinha parecida com o mirtilo.

Feijoada em Portland (Oregon-EUA). Foto: Edu Cavalcanti.

Feijoada em Portland (Oregon-EUA). Foto: Edu Cavalcanti.

A volta para Portland foi, novamente, com uma carona arranjada por James. E aqui ficamos duas semanas, estamos agora, bem felizes e bem gratos a esse amigo querido que tão bem sabe receber quem está na estrada. Sabe porque também é um viajante e conhece as necessidades mais concretas e profundas de quem está em movimento. Em agradecimento, além de algumas fornadas de pão de queijo, fizemos uma feijoada deliciosa para todos os moradores da casa.

Carona para a Califórnia 
Não bastasse toda essa recepção calorosa em Portland, James ainda nos arrumou uma carona até São Francisco. Sua amiga Stacey, também viajante, além de enfermeira, estava encarando a jornada de 12 horas para fazer seu plantão mensal na emergência do San Francisco General Hospital, conhecida pela grande quantidade de atendimentos de pessoas esfaqueadas, baleadas, intoxicadas.
Stacey: carona de Portland a São Francisco.

Stacey: carona de Portland a São Francisco.

Eu e Stacey conversamos quase o caminho todo, com Edu e Jessé cochilando ao lado da comportada cachorrinha Juneau. O que Stacey contou de histórias, meu deus. As que mais me impressionaram foram sobre suas experiências com os Lemurians. Reza a lenda local que eles são o povo sobrevivente do afundamento do continente Lemuria, cerca de 12 mil anos atrás, e ainda vivem escondidos no monte Shasta, parte da cadeia de montanhas Cascade, no Norte da Califórnia.

Stacey contou que já os viu, justamente no tipo de situação em que eles costumam se revelar, quando há pessoas precisando de ajuda. Era inverno, a primeira vez de Stacey acampando na neve. Ela adorou o fato de não sujar a barraca de barro, descobriu o poder da garrafa de metal cheia de água quente dentro do saco de dormir durante a noite e achou graça limpar a bunda com gelo. Na trilha de volta, bateu uma tempestade. Quando as cerca de 20 pessoas chegaram ao estacionamento, um dos carros não ligava. Não havia ninguém por perto, nenhum veículo passaria por lá naquele momento.
Com frio e fome, todos se amontoavam ao redor do carro e tentavam descobrir qual era o problema. Nesse momento, um homem alto, barbudo, vestindo apenas bermuda e camiseta se aproximou, encostou em um fio elétrico e disse que podiam virar a chave. O motor roncou. A galera gritou de alegria. Stacey olhou ao redor para agradecer ao homem, mas ele já havia desaparecido. “Era um Lemurian, eu tenho certeza”, disse ela, dirigindo, com o místico monte Shasta ao fundo.
Natural de San Jose, nos arredores de San Francisco, Stacey ainda nos levou no lago Shasta, onde costumava passar parte do verão com a família. O pai e seus nove irmãos, com as respectivas esposas e filhos, alugavam três house boats, que são pequenas casas montadas em cima de barcos. “A gente pulava do telhado, fazia churrasco no deque, jogava água no outro barco”, lembra.
Na chegada ao seu estado natal, via-se campos de amendoeiras secas por todo lado, enquanto que em outros trechos as mesmas árvores cresciam verdes. Segundo Stacey, ano passado houve uma grande seca e muitos agricultores tiveram que parar de irrigar suas plantações. Esse foi o resultado. “E dizem que este ano vai ser ainda pior. A água da Califórnia vem, majoritariamente do Oregon, e, como não tem nevado muito por lá, há pouco gelo pra derreter.”
Uma hora antes de atingirmos o destino final, nossa agora amiga levou-nos para uma típica refeição americana na rede de fast food californiana In and Out: hambúrguer e batata frita – e eu ainda pedi milk shake, que pecado!
E a viagem não poderia ter acabado melhor. Preocupada de nos largar por aí, Stacey nos levou até a porta da casa de Sol, amiga que também conhecemos em Ladakh, na Índia, e mais uma viajante solidária que nos receberia em sua casa, em Berkeley.

 

IMAGENS DO OREGON, por Edu Cavalcanti e Jesse Giotti.

 

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