EUA costa a costa (4) – A travessia de trem

4 de maio de 2015 em EUA Costa a Costa, Galeria de imagens

Mapa: Amtrak.

Mapa: Amtrak.

Por Anita Martins*

 

Levou cerca de 300 anos para os primeiros colonizadores ingleses irem para o Oeste do país hoje chamado Estados Unidos. A viagem de um lado a outro do território era considerada muito perigosa, tanto que, de início, apenas alguns caçadores se aventuraram. Para ilustrar a dificuldade de tal jornada, o famoso Donner Party, um grupo de 87 homens e mulheres que fizeram a travessia, é comumente citado. As grandes distâncias e as condições climáticas duras, com nevascas e tempestades de areia, levaram essas pessoas a comer todo o gado que transportavam, cascas de árvores, galhos e, por fim, uns aos outros. Apenas 46 sobreviveram.

Paisagem. Foto: Anita Martins.

Paisagem. Foto: Anita Martins.

Hoje em dia, essa viagem pode ser feita de trem, confortavelmente. Mas o cenário descrito na História ainda se revela. Em quatro dias sob os trilhos, passa-se por vastas áreas desérticas, montanhas nevadas, rios congelados, densas florestas de pinheiros. A paisagem é espetacular, e o melhor lugar para apreciá-la é o vagão lounge, todo de vidro. Os espaços são disputados, principalmente no horário do por do sol.

É nesse espaço, na cafeteria e no restaurante, onde são servidas as principais refeições, que se dá a interação social tão típica das viagens de trem.

 

Foto: Anita Martins.

Foto: Anita Martins.

Dian e Edward

Foi em um almoço que eu e Edu conhecemos Dian e Edward Metzger, 74 e 76 anos, de Belleville, Illinois. Parecendo bastante religiosos e tradicionais, eles têm uma história de amor incomum. Com duas filhas e abandonada pelo marido, em uma época de forte discriminação contra mães solteiras, Dian era professora primária, atividade que amava. “Eu chegava a acordar no meio da noite com ideias para ajudar este ou aquele aluno”, conta.

Edward era encanador e passou sete anos trabalhando em uma missão católica em Papua Nova Guiné. “A cultura deles era tão diferente, não sei como é agora. Por exemplo, para escolher os maridos, as adolescentes ficavam dentro de uma cabana. Um por um, os pretendentes entravam e eles encostavam a testa um no outro por algum tempo. Daí saía a decisão”, descreve.

Em seu retorno de Papua Nova Guiné, Edward conheceu Dian. Eles se apaixonaram e namoraram por cerca de dez anos, saindo sempre acompanhados das meninas. Somente quando o pai de Dian estava muito doente, ela intimou Edward a selarem a união. “Só então me dei conta de que nunca tínhamos passado muito tempo sozinhos. Mas deu tudo certo”, comenta Dian. Aos poucos, Edward foi se tornando o pai das filhas de Dian. Até que, quando elas tinham 30 anos, ele as adotou oficialmente. “Me tornei pai aos 60 e avô aos 61”, brinca.

Agora, duas vezes ao ano, o casal faz essa viagem de trem para visitá-las. Reservam um compartimento especial com cama, que custa aproximadamente US$ 1 mil. Quem não faz o mesmo, como eu e Edu, vai em bancos similares aos de um ônibus executivo do Brasil. E olha que é chão.

 

Edu e Anita na selfie dentro do  trem. Foto: Anita Martins.

Edu e Anita na selfie dentro do trem. Foto: Anita Martins.

Destino, Boston

Na Índia, onde viajamos ano passado, todos os passageiros – exceto os da terceira classe, na qual dizem que você nem pode se levantar para ir ao banheiro que perde o assento – tem direito a uma cama. O trem é bem mais simples, mas tem suas vantagens. Na segunda classe, onde fomos, as janelas não têm vidros, os bancos não reclinam, não há restaurante ou café, nem pense em tomadas para carregar aparelhos eletrônicos. Mas, à noite, os assentos se transformam em beliches e todo mundo dorme deitado. Ambulantes entram nos vagões vendendo os mais variados tipos de comida e famílias dividem o que trouxeram, deixando o ambiente bem menos formal. E ainda tem o preço, que mesmo para os indianos, é mais acessível que o daqui é para os americanos.

Aqui, no entanto, ocorreu algo que não consigo imaginar ocorrendo lá, simplesmente porque as realidades são muito distintas. Nossa viagem foi adiada em um dia por causa do descarrilamento de um trem de carga. Por isso, nos pagaram uma noite em um hotel e US$ 80 para alimentação, o que, como viajantes econômicos que somos, quase nem gastamos. Mas aproveitamos, demos uma banda na cidade e fomos na piscina quente do hotel de noite.

Gelado. Foto: Anita Martins.

Gelado. Foto: Anita Martins.

Quatro dias depois, com uma parada de nove horas em Chicago, chegamos ao nosso destino final, Boston, onde fomos calorosamente recebidos pela família de um grande amigo. Mas essa é uma história para o próximo capítulo da série EUA de costa a costa.

*Anita Martins é jornalista e viaja acompanhada do marido, o repórter fotográfico Edu Cavalcanti.

 

MOMENTOS DA TRAVESSIA. Fotos: Anita Martins e Edu Cavalcanti.

 

Share on Google+Tweet about this on TwitterShare on FacebookPin on PinterestEmail this to someone