EUA Costa a Costa (6) – Um lugar na “América”

16 de julho de 2015 em EUA Costa a Costa

Por Anita Martins e Edu Cavalcanti (textos e fotos)

 

Everett, na região metropolitana de Boston, é uma comunidade de imigrantes brasileiros, a maioria ilegais. A padaria local tem pão de queijo, coxinha, suco de açaí e prato do dia com arroz, feijão, bife, batata frita e salada. Também há mercados, lojas, consultórios médico e odontológico, empresas de advocacia, salões de beleza, tudo brasileiro. Até no Banco da América, a maior parte dos funcionários fala português. A necessidade de se comunicar em inglês é pequena.

Apesar de haver latinos de vários países e tantas outras nacionalidades em Everett, um personagem comum é o mineiro do interior que veio para os Estados Unidos 15 anos atrás esperando fazer dinheiro e voltar. Para alguns, o sonho era ficar rico. Se tem alguém que ficou, não está mais aqui.

Os dias de trabalho são longos. Pelo menos no verão, quando há empregos de sobra e trabalhadores querendo economizar para o demorado e rigoroso inverno. Nesse período, a neve acumula nas ruas e muita gente se entoca. Às vezes, na primavera ou no verão, o mineiro vai a um parque de Boston ou à praia. Em geral, é bastante solitário.

Mas ele se acostumou à vida na “América”, trouxe mulher e filhos, e agora não se vê retornando ao Brasil. Até porque tem receio que as coisas não deem certo por lá e não possa entrar nos Estados Unidos de novo. Aqui ele não ficou rico, mas consegue comprar comida mais que suficiente, móveis, roupas, um iPhone ou uma BMW, mesmo que seja a mais antiga delas. Para isso, vive no ciclo trabalho, casa, shopping. A maioria também frequenta uma igreja evangélica, onde encontra interação social e apoio. Para alguns, a vida está boa. Outros acham que era melhor no Brasil.

O mineiro, que também pode ser roraimense, gaúcho, catarinense ou carioca, costuma dizer que o Brasil não é um bom lugar para viver. Mas o que sabe do Brasil dos dias de hoje vem de redes sociais, veículos de comunicação e relatos de outros brasileiros. Outros brasileiros nos quais ele nem sempre confia. Aqui se ouve bastante que “a brasileirada só apronta”.

Essa afirmação não deixa de ser uma verdade dentro da microrealidade de Everett. Há gente que está aqui apenas para crescer na vida, ganhar mais e mais dinheiro, e faz quase qualquer coisa para isso. Os jornais brasileiros da região invariavelmente destacam o mecânico brasileiro que está dando golpe ou o advogado brasileiro que pegou dinheiro de várias pessoas dizendo que iria legalizar a situação imigratória delas.

 

Efeito nos salários

Ter ou não ter “documentos”, naturalmente, é assunto constante. Todo ano, cria-se a expectativa de que agora, sim, uma nova lei de imigração vai sair e regularizar a situação de boa parte da população imigrante. Obama prometeu e vem tentando, já tendo sido barrado por um juiz do Texas, um dos estados americanos mais conservadores. Com a maioria republicana no Congresso, está difícil aprovar benefícios para qualquer grupo que não seja o de americanos, brancos e de classe média ou alta. Hillary Clinton está se candidatando com a mesma promessa de Obama.

Esse assunto se estende para outras esferas da sociedade. As mais conservadoras são contra uma reforma imigratória, as liberais a favor. Todas são, de alguma forma, impactadas (clique aqui para ler um artigo do Brazilian Times sobre a situação antes e depois de uma possível reforma).

IMG_1644De acordo com dados do Centro de Pesquisas Pew, os chamados imigrantes “indocumentados” são 3,5% da população. Eles são os pais de 7% dos estudantes que se matriculam na pré-escola e terminam o Ensino Médio. O mapa mostra, por estado, a porcentagem de estudantes que possuem pelo menos um dos pais “indocumentado” e que concluem a escola.

Esses imigrantes não vivem com medo constante de serem descobertos – os momentos mais tensos são quando estão dirigindo, pois na maioria dos estados não podem ter carteira de motorista. Não há perseguição acirrada, inclusive porque a economia dos Estados Unidos se beneficia com a presença deles.

O economista da Universidade da Califórnia Giovanni Peri escreveu uma série de artigos analisando estados com altos e baixos níveis de imigração. Em estados com mais imigrantes sem documentos, profissionais especializados trabalharam mais horas e ganharam mais dinheiro, ou seja, a produtividade da economia aumentou. De 1990 a 2007, os trabalhadores “indocumentados” fizeram o salário dos documentados aumentar em até 10%.
 

HISTÓRIAS ÚNICAS DE FÉ E TRABALHO

Nem todo mundo se encaixa com todas as características do mineiro descrito acima. Cada história é única e envolve famílias que mudaram radicalmente suas vidas e suas perspectivas. Eu e Edu fomos recebidos, de portas e corações abertos, por uma família1 com uma dessas jornadas únicas.

Marcos2 vivia em sua cidade Natal com a mulher e as duas filhas. O enteado já era crescido. Ouviu relatos de colegas sobre os Estados Unidos e uma vontade de vir para cá começou a crescer nele. Veio, 12 anos atrás.

Ele morou em um apartamento com dezenas de outros brasileiros nas mesmas circunstâncias. Trabalhou muito. Alguns anos depois, Ana e as duas filhas vieram. Débora tinha 17 anos. Carol 7. A família se fixou na Flórida, lugar de clima quente, perto do mar.

A saúde de Ana nunca havia sido tão boa. Ela e Marcos trabalhavam e melhoravam de vida. Débora e Carol iam para a escola. A igreja unia todos. As meninas cantavam muito bem. Faziam viagens à Disney. Débora logo começou a trabalhar e ter suas coisas. Carol, que já falava inglês sem sotaque, ganhava concursos de advocacia estudantil e caminhava para se tornar a melhor da classe.

Acontecimentos fizeram com que se mudassem para Everett, lugar de muita neve e pouco trabalho no inverno. No verão, em compensação, tem de sobra. Além disso, Massachusetts, estado em que a cidade fica, é o único do país inteiro que oferece uma espécie de Sistema Único de Saúde (SUS) até mesmo aos imigrantes ilegais. Em qualquer outro local, atendimento e tratamento são cobrados a preço de ouro – ver documentário “Sicko – SOS Saúde”, de Michael Moore.

Foi essa a sorte quando Ana teve que tirar um dos rins. Internada no hospital, recebia os cuidados de Débora, que também tomava conta de Carol, a essa altura primeira da turma. Marcos trabalhava em dobro.

A mãe estava recuperada para a formatura do Ensino Médio de Carol, que foi oradora. Mas o coração de Ana estava apertado com o futuro da filha. Receberia uma bolsa para a Universidade, mesmo sendo imigrante ilegal? Ou teria que ir estudar no Brasil? Com essa preocupação, começaram a se acumular em casa caixas de papelão cheias de objetos para levar para o Brasil, caso resolvessem ir embora.

Carol ganhou seis bolsas de universidades americanas, tamanho era seu desempenho. Escolheu a Harvard, onde estuda atualmente. As caixas continuam cheias, mas sem sinal de que irão a qualquer lugar tão cedo. Ana diz que só volta, algum dia, se for da vontade do senhor. Por enquanto, vai pendurando nas paredes da casa fotos orgulhosas das filhas e vários certificados de Carol.

Débora tem um cargo de coordenação onde trabalha. Ana e Marcos são funcionários dessa mesma empresa. Marcos ainda tem outro emprego. Carol mora no campus e conta que se sente meio brasileira, meio americana, vivendo um pouco em cada mundo. Henrique, o enteado que havia ficado no Brasil, veio visitá-los pela primeira vez este ano. Estão todos juntos, finalmente, 12 anos depois.

 

Notas

1) Nosso mais profundo agradecimento pela generosidade e pelo carinho com que Everett, e essa família linda em especial, nos recebeu.

2) Todos os nomes foram alterados.

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