EUA Costa a Costa (Fim) – A fada madrinha de NY

13 de agosto de 2015 em EUA Costa a Costa, Galeria de imagens

Ponte do Brooklyn.

Ponte do Brooklyn.

Últimas semanas nos Estados Unidos, a maior parte do tempo em Nova Iorque, a capital mundial da diversidade

Por Anita Martins
e Edu Cavalcanti Especial para o
Daqui na Rede

 

A primeira vez que Edu e eu fomos a Nova Iorque, era por apenas uma noite, para assistir a uma palestra. Não tínhamos lugar para ficar e não queríamos voltar para Boston, onde estávamos morando, durante a madrugada. Como viajantes duros que somos, pensamos que, se conhecêssemos alguém no evento, pediríamos um abrigo, senão iríamos para um albergue.

Edu,Anita e a fada.

Edu,Anita e a fada.

Keka, brasiliense que mora nos Estados Unidos há 15 anos, sentou do nosso lado, nos ouviu falar português e puxou conversa. Oferecemos o bolo de mandioca que tínhamos trazido de uma padaria brasileira e abrimos o jogo. Keka não podia nos receber, mas ligou para uma “amiga que sempre hospeda viajantes”. Depois da resposta positiva, pegamos o metrô de Manhattan para o Brooklyn e tocamos a campainha dela.

Apesar do adiantado da hora, Myriam veio até a porta com seu sorriso cativante, seus olhos verdes brilhantes e seu abraço caloroso, próprios de uma fada madrinha. Foi amizade ao primeiro papo. Myriam Marques é mineira, feminista, mãezona de três guris já crescidos, enfermeira em uma ONG que oferece suporte a portadores de HIV, mas com vasta experiência em saúde da mulher. Sua cozinha aconchegante e cheia de naturebices gostosas tem uma varandinha cheia de plantas que poucos “apertamentos” de NY possuem.

Após essa visita, Edu foi à cidade para um workshop de alguns dias e também ficou na casa da Miroca. Quando retornamos juntos para uma temporada de um mês e meio, não queríamos ser inconvenientes e pedir para passar o tempo todo lá. Calhou que um amigo querido que tínhamos acabado de fazer em um workshop estava indo passar duas semanas na Itália e ofereceu seu apartamento para ficarmos.

 

Saída da estação de metrô Nostrand Av, na linha vermelha.

Saída da estação de metrô Nostrand Av, na linha vermelha.

Gentrificação transforma Nova Iorque

Crown Heights, área do Brooklyn onde esse amigo mora, é tradicionalmente ocupado por imigrantes de países das Antilhas como Dominica, Trinidad e Tobago, Jamaica e República Dominicana, que por sua vez haviam recebido pessoas vindas da Índia e da África. Por causa dessas influências, hoje, em Crown Heights, vê-se famílias negras conversando na frente das casas e come-se arroz com feijão cheio de temperos indianos.

Mas esse cenário está mudando, por causa do chamado processo de gentrificação, a substituição de populações mais pobres por mais ricas que vem ocorrendo nas maiores cidades do mundo. Em Nova Iorque, diz-se que primeiro chegam os artistas, interessados em áreas com culturas diferentes. Muros viram obras de arte, cafés são inaugurados e, aos poucos, novos moradores se acomodam. Somente até os ricos chegarem e expulsarem todo mundo.

Com toldo azul, restaurante caribenho.

Com toldo azul, restaurante caribenho.

Em Crown Heights, ao lado de um restaurante caribenho simples, barato, com comida deliciosa e frequentado majoritariamente por negros, foi inaugurado um café mais arrumadinho, cujos clientes são, em geral, brancos. No prédio onde ficamos hospedados, só havia moradores brancos. Nos edifícios vizinhos, apenas negros. É a gentrificação em ação, em um país onde a cor da pele ainda separa quase como água e óleo.

Boa parte de Nova Iorque já passou ou está passando por essa transformação, principalmente pelas constantes ondas imigratórias que atingem a cidade. No Queens, os latinos estão sendo substituídos pelos chineses. O Harlem, que por quase um século foi o reduto negro de onde saíram personalidades como Louis Armstrong, Billie Holiday, Nina Simone e Malcolm X, já não tem mais maioria negra. Não escapou nem a Times Square, um dos maiores pontos turísticos de Manhattan, cheia de brasileiros fazendo compras quando estávamos lá. Estranhei, já que andava ouvindo falar tanto de crise no Brasil.

 

4 de Julho, Dia da Independência, em Dumbo (Brooklyn).

4 de Julho, Dia da Independência, em Dumbo (Brooklyn).

O novo e o velho Brooklyn

A região mais gentrificada de Nova Iorque é o Brooklyn. Tanto que a linha L do metrô é chamada por alguns nova iorquinos de trem dos gentrificadores. A imagem que filmes dos anos 80 e 90 passavam do local – com becos cheios de lixo, barris de madeira incendiados, gangues em atividade – praticamente não existe mais. Não somente por causa da gentrificação, mas também pela política de tolerância zero adotada pela prefeitura de Nova Iorque nas últimas duas décadas. Apesar disso, o produtor de locação Nick Carr contou, em um artigo no The Guardian, que a indústria do cinema continua demandando o que, hoje, é apenas fantasia.

A parte nova do Brooklyn é cheia de ciclistas, hortas comunitárias, cooperativas de alimentos orgânicos, cervejarias artesanais, cafés para todos os gostos, lojas descoladas, banquinhas de livros usados, casas de shows e alugueis mais caros.

Biblioteca do Harlem.

Biblioteca do Harlem.

Mas o Brooklyn antigo deixou heranças. Uma que nos impressionou é o sistema de bibliotecas criado em 1892, atualmente com 58 unidades, o quinto maior do país. Como precisávamos trabalhar, e não apenas passear em Nova Iorque, Edu e eu fizemos um tour por bibliotecas. Já que trabalhávamos durante um certo número de horas e depois caminhávamos pelos arredores, tivemos o privilégio de conhecer os serviços oferecidos à população e também peculiaridades como a ida de moradores de rua para usar a internet e tentar dormir em um ambiente com ar condicionado, sendo constantemente acordados pelos seguranças.

Manifestação em frente ao Teatro Nacional Negro (Harlem).

Manifestação em frente ao Teatro Nacional Negro (Harlem).

Foi em uma dessas visitas que acabamos explorando o Harlem. Visitamos a sede do Teatro Nacional Negro, presenciamos um encontro de ativistas negros na rua e passeamos pelo parque Marcus Garvey – que tem vagalumes! –, onde ainda acabamos assistindo à peça Tempestade, de William Shakespeare, com a Companhia de Teatro Clássico do Harlem, de graça.

Alguns dias depois, fomos à biblioteca central do Brooklyn e depois à concha acústica do Parque Prospect, onde sabíamos que estava sendo realizado o Celebrate Brooklyn, festival de música organizado anualmente pela associação comunitária que cuida do local. Pelo preço sugerido de 3 dólares, vimos o inebriante show da banda Tamikrest, formada por músicos tuaregues, do deserto do Saara.

Homenagem civil à Batalha do  Brooklyn.

Homenagem civil à Batalha do Brooklyn.

Outra herança dos velhos tempos são as muitas marcas da História. Um dia, se perdendo pelas ruas da região, Edu e eu nos deparamos com uma espécie de memorial privado à Batalha do Brooklyn, contra os ingleses, a primeira nos Estados Unidos depois da declaração da independência e a maior da Revolução Americana.

Coney Island, a praia popular de Nova Iorque historicamente relegada em termos de investimentos por ficar, literalmente, no fim da linha, parece ser a interseção do novo e do antigo. Com um calçadão renovado por causa da destruição causada pelo furacão Sandy, em 2012, o berço da montanha russa e das mais bizarras frituras dos Estados Unidos ainda abriga muitos imigrantes que não têm dinheiro para morar em outro lugar. É lá que, não apenas esses dois mundos, mas muitos outros que compõem a capital do mundo se encontram. Principalmente durante o verão, Coney Island vira sinônimo de diversidade, e uma riquíssima experiência antropológica. Nova Iorque e os Estados Unidos, ao contrário do que imaginei, vão deixar saudades.

 

*Anita Martins e Edu Cavalcanti são jornalistas e residem em Sambaqui (Florianópolis-SC).

 

MOMENTOS EM NOVA IORQUE. Fotos: Edu Cavalcanti e Anita Martins.

 

Dorminhocos de metrô. Foto: Fernanda Kock.

Dorminhocos de metrô. Foto: Fernanda Kock.

Nota

Anita e Edu chegaram ao Brooklyn (Nova Iorque) no dia 18 de junho passado, uma quinta-feira. Entre os dias 22 e 26, Anita participou workshop de metodologia do MediaStorm, estúdio multimídia de Brian Storm. Entre os dias 20 e 24 de julho, pouco antes do retorno ao Brasil, Edu participou de um workshop intitulado Multimedia Storytelling, no Centro Internacional de Fotografia, também em Nova Iorque, ministrado pelo fotojornalista Bob Sacha.

“MediaStorm team’s approach on this workshop is: ‘Here is what we have learnt and how we work. Feel free to take it and use it’. So the whole week was filled with transparency, generosity and tons of information -from understanding how Brian’s path led him to form MediaStorm’s concept to learning about the company workflow, with a lot in between.” Anita Martins, depoimento ao site do MediaStorm.

Vídeo sobre os 25 anos do The Kalish (2015).

 

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