A Coroação de Nossa Senhora das Necessidades

6 de setembro de 2015 em FESTA DO DIVINO 2015, Galeria de imagens

Evento foi o ponto alto da Festa do Divino Espírito Santo de 2015 no sábado (5.9) em Santo Antônio de Lisboa. Depois do cortejo, padre Edinei abriu missa lembrando Aylan Kurdi, o menino sírio de três anos que foi encontrado morto em uma praia da Turquia e cuja foto se tornou símbolo da crise migratória e humanitária nos arredores da Europa

Por Anita Martins (texto) e Milton Ostetto (fotos). Especial para o Daqui na Rede

Pouco antes das 19h deste sábado (5/9), ecoavam na rua Cônego Serpa sons de sapatos de salto de mulheres em trajes vermelhos indo para a igreja de Santo Antônio de Lisboa. No salão paroquial, porta-bandeiras imperiais checavam seus vestidos de veludo cor de vinho com bordados em dourado. Na escadaria, integrantes da banda Nossa Senhora da Lapa aqueciam seus instrumentos de sopro e suas gargantas, como que chamando a comunidade para a coroação da padroeira da paróquia, Nossa Senhora das Necessidades, uma cerimônia exclusiva da Festa do Divino de Santo Antônio.

Na casa da família Pereira Machado.

Na casa da família Pereira Machado.

Assim que todos estavam prontos, a Irmandade do Divino Espírito Santo, acompanhada da banda e das porta-bandeiras, seguiu para a Casa do Império, residência da família Pereira Machado, “mimosamente preparada para a festa”, segundo as palavras do padre Edinei da Rosa Cândido. Lá, encontravam-se o casal festeiro, Renato Machado da Silva e Berenice Cunha Martins da Silva, e o cortejo imperial, formado por crianças e adolescentes.

Depois de agradecer a família e lembrar seo Alcebíades e dona Juventina (Tininha), que já faleceram, o padre Edinei rezou uma Ave Maria e deu início à trasladação do cortejo imperial para a igreja. Pessoas saíram de casas e estabelecimentos comerciais para ver e fotografar a cena, que parecia saída do passado, mas é resultado da preservação de uma herança cultural.

O historiador e membro da Irmandade Sérgio Luiz Ferreira atuou com uma espécie de diretor de harmonia e evolução, orientando o cortejo, mas sem o estresse comum das escolas de samba, pelo contrário com toda tranquilidade e cortesia que lhe são características.

Fogos de artifício e badaladas de sino anunciaram a chegada à igreja. A banda Nossa Senhora da Lapa, que possui 119 anos, tocou “Devotos do Divino” enquanto as crianças subiram as escadas, sendo as meninas ajudadas a levantar seus vestidos longos para não tropeçarem.

 

“Beleza não pode nos alienar da realidade”

Ao iniciar a missa, em meio à decoração de rosas vermelhas, o padre Edinei elogiou a qualidade da festa, dizendo que tudo ao redor parecia ter se transformado em joia. “Mas não podemos deixar a beleza nos alienar da realidade”, salientou. O pároco explicou que Nossa Senhora, quando vista com Jesus no colo, está fugindo para o Egito com São José, em situação parecida com a que hoje vivem milhares de refugiados de países em guerra que tentam chegar à Europa.

Padre Edinei falou de Aylan Kurdi, o menino sírio de 3 anos que foi encontrado morto em uma praia da Turquia e cuja foto se tornou símbolo da atual crise migratória e humanitária. “É um filho de Deus, como as nossas crianças aqui. Hoje, gostaria de trazer para o coração de Nossa Senhora todas as crianças que não têm direito à vida.” Falando sobre as sombras que ameaçam a infância aqui no Brasil, ele conclamou os pais a não terceirizarem a educação de seus filhos.

O discurso do pároco vai ao encontro das raízes da festa do Divino, uma celebração de solidariedade e partilha, como explica o historiador Sérgio. “Lá na origem dos festejos, com os franciscanos espirituais, a rainha escolhia pessoas pobres, às vezes moradores de rua, para serem coroados.”

 

Coroação encerra penúltima noite de festa

Depois de rezas, momentos de silêncio para reflexão e cantorias do coral Vozes do Sol Poente, anjinhos adentram a igreja e se posicionaram no altar. Cantaram, em grupo e individualmente, sob projeção de estrelas azuis de luz. A adolescente Katerine Queiroz fez uma bonita entrada, cantando enquanto caminhava sobre o tapete vermelho. Nicole Cunha, 15 anos, também vestida de anjo, foi a responsável por coroar a imagem secular de Nossa Senhora das Necessidades.

Todo esse espetáculo foi organizado por Maria de Lourdes de Andrade Padilha (Dinha), 51, que até os últimos instantes antes da apresentação estava conferindo os detalhes das fantasias dos pequenos na casa paroquial. Aos seis anos de idade, era Dinha quem estava no papel de anjo. Aos 15, ela mesma coroou Nossa Senhora.

Momento da Coroação.

Momento da Coroação.

Dona Vanda Maria da Cunha Martins, integrante do coral que completou 81 anos na sexta-feira (4.9), fez a Coroação aos 12 e diz que até hoje recebe pedidos para passar seus conhecimentos à nova geração. Para ela, “é gratificante ver uma tradição sendo mantida por tanto tempo”.
Os festejos do Divino são uma importante expressão da cultura e religiosidade açoriana, instaurada no Distrito em 1754. A Festa do Divino de Santo Antônio de Lisboa é a única que possui dupla coroação: do menino-rei e de Nossa Senhora. Em 1935, o pároco alemão Bernardo Bläsing não quis coroar o menino-rei, como era de costume. Sérgio Luiz Ferreira conta que, naquele ano, o provedor da Irmandade era Roldão da Rocha Pires, que sugeriu, então, coroar Nossa Senhora. “O padre alemão foi-se embora. O menino-rei voltou a ser coroado e Nossa Senhora também.”

 

O SÁBADO NA FESTA DO DIVINO, por Milton Ostetto

 

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