“Marujo” entre bombas no Oriente Médio – 8/10

1 de abril de 2016 em Marujo dos Sete Mares - Antônio Cardoso, Memória

Por Celso Martins

Este é o oitavo capítulo da série de dez reportagens “As aventuras de Marujo nos sete mares”. A cada três dias, será publicado um novo episódio. Confira o próximo no dia 4.4.

Golfo Pérsico em tempos de guerra, por volta de 1984. Foto: Antônio Cardoso.

Golfo Pérsico em tempos de guerra, por volta de 1984. Foto: Antônio Cardoso.

O lugar mais perigoso visitado por Marujo foi o Golfo Pérsico, no Oriente Médio, palco de sucessivas guerras. “Ali por volta de 1984 foi difícil”, observa, “quando nosso comandante mandou que a gente escrevesse com letras bem grandes no convés a palavra ‘Brasil’”.

Helicópteros percorriam a região registrando do alto as embarcações. Isso aconteceu mais de uma vez. “Muitas vezes, a gente dormia com os documentos junto ao corpo, deixávamos os escaleres prontos, com cobertores à prova d’água, aqueles que molham, mas continuam quentes.” Isso para o caso de terem que deixar a embarcação às pressas, o que nunca aconteceu, mas apavorava a marujada.

Marujo, no camarote individual. Foto: Ailson Marinho. Acervo: Antônio Cardoso.

Marujo, no camarote individual. Foto: Ailson Marinho. Acervo: Antônio Cardoso.

Também ficou na memória a lembrança de mísseis passando sobre o navio em direção aos alvos. “Isso assustava todo mundo”, enfatiza.

Comércio e corrupção

O porto de Dubai era o “caminho da roça. Em geral, a gente levava carga de um porto a outro. Por exemplo, num porto da África pegava manga ou coco e transportava para outro. É o que eles têm para exportar naquela região de muita pobreza”. Uma vez, lotaram o navio com duas mil toneladas de mangas. “Enchia os dois porões. Carregava hoje e descarregava amanhã, em caixas, levadas no porão comum. Chegava lá, a empresa que recebia e colocava na refrigeração. Faziam suco, essas coisas.”

Com o amigo e colega de trabalho Ailson Marinho, à bordo do navio Rio Jaguaribe no início dos anos 1980. "Na época era o maior navio brasileiro, com 218 metros de comprimento. Maior do que ele só um navio japonês com cerca de 300 metros". Foto: Acervo Antônio Cardoso.

Com o amigo e colega de trabalho Ailson Marinho, à bordo do navio Rio Jaguaribe no início dos anos 1980. “Na época era o maior navio brasileiro, com 218 metros de comprimento. Maior do que ele só um navio japonês com cerca de 300 metros”. Foto: Acervo Antônio Cardoso.

Em tempos de guerra, esse comércio se reduzia, restando em operação somente o porto de Dubai, gerando longas filas. “O navio levava até 40 dias para atracar. Chamavam de quarentena, esperando vaga. Foi quando eu vi que os comandantes dos navios roubavam o nosso país, o Brasil. Por exemplo: chegava um navio holandês com carga para descarregar, mas chegava depois de nós. Então o agente da empresa comprava a nossa vaga. O agente brasileiro e o comandante entravam nesse jogo. Aí o navio atracava na nossa frente e a gente ficava lá.”

Navio Rio Jaguaribe. Foto: Acervo Antônio Cardoso.

Navio Rio Jaguaribe. Foto: Acervo Antônio Cardoso.

Isso significa que “a roubalheira já vinha daí e foi por isso que o Lloyd fechou”. Cada dia atracado, calcula, custava dois mil dólares e “a gente ficava até 40 dias esperando. Já faziam isso para comer dinheiro”.

Leia mais da série “As aventuras de Marujo nos sete mares”:
Capítulo 1 - Introdutório
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7

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