O “almirante” amigo dos marujos – 10/10

7 de abril de 2016 em Marujo dos Sete Mares - Antônio Cardoso

"Marujo", em sua casa, no Sambaqui. Foto: Anita Martins.

“Marujo”, em sua casa, no Sambaqui. Foto: Anita Martins.

Este é o décimo e último capítulo da série de dez reportagens “As aventuras de Marujo nos sete mares”. Desde o dia 11.3, o Daqui na Rede vem publicando um novo episódio a cada três dias. Para encerrar a série, um texto especial sobre o capitão de mar e guerra Luiz Paulo Beltrão Frederico produzido por seu filho Ângelo Bruno Frederico para o Daqui na Rede. A produção foi desencadeada das palavras elogiosas de nosso velho marujo Antônio Cardoso sobre o mesmo, conhecido como “almirante” pelo marinheiros.

O que disse o marinheiro Cardoso, pelo menos no que tange o respeito que tinha por todos e o tratamento igual que dispensava à tripulação, não importando cor, credo ou patente, era uma característica marcante do meu pai. De fato, fazia questão de comemorar os aniversários da tripulação de forma sempre participativa. Sua agenda jamais falhava.

"Almirante" em serviço. Foto: Acervo  Luiz Paulo Beltrão Frederico.

“Almirante” em serviço. Foto: Acervo Luiz Paulo Beltrão Frederico.

Não creio, dado o seu senso de responsabilidade, que mandasse parar a  máquina do navio para uma pescaria em algum parcel. Entretanto, não é impossível, nem improvável que a camaradagem entre oficiais de máquina e aqueles que gostassem de uma pescaria levassem a uma encenação sobre uma parada provocada por defeito de máquina. Ele podia até desconfiar disso, mas jamais levantava dúvida acerca da palavra do chefe de máquinas.

Vi que o certificado de batismo do marinheiro foi concedido na época em que ele comandava o navio Frota Beira. Em 1974, fiz uma viagem ao Japão no Frota Beira e, claro, é possível que tenha conhecido o Sr. Cardoso. Sua fisionomia não me é estranha. Naquela viagem, meu pai havia concedido a um marinheiro, que era conhecido como Targino, que levasse a sua esposa. A mãe do primeiro piloto (Sr. Mário) também estava a bordo.

Uma das festas de aniversário no navio. Foto:  Luiz Paulo Beltrão Frederico/ Acervo Antônio Cardoso.

Uma das festas de aniversário no navio. Foto: Luiz Paulo Beltrão Frederico/ Acervo Antônio Cardoso.

O trabalho no navio obedecia a uma rotina: na ida, era batida a ferrugem do convés. Na volta, o navio era pintado. A turma que tinha ido batendo ferrugem, voltava tirando quarto no leme. Não havia necessidade de uniforme quando esse pessoal estava ao sol batendo ferrugem, ou pintando. Todos, sem exceção, podiam trabalhar sem camisa. É óbvio que muitos outros comandantes achavam inadmissível aquela liberalidade. Meu pai não ligava. Aposentou-se da Marinha com o tempo mínimo exigido (25 anos). Era capitão de fragata e, na reforma, foi elevado a capitão de mar e guerra.

Uma coisa é certa: sua alma não era militar, o que foi uma coisa boa. Ele adorava o mar e, acima de tudo, adorava viajar. Acho que seu primeiro comando fora da Marinha de Guerra foi em um pequeno petroleiro da FRONAPE, o “Guaporé”. Me lembro de, tempos atrás, ver esse pequeno navio em Niterói, em uma espécie de cemitério de navios. Lá ainda estava o outrora magnífico “Almirante Saldanha”, o navio de sua viagem de Guarda Marinha, feita tardiamente em 1947, por causa da Segunda Grande Guerra.

“Morreu trabalhando”
Na década de 60, a DOCENAVE mandou construir alguns superpetroleiros/graneleiros no Japão. Um deles foi o DOCEMAR. Meu pai foi para o Japão em 1969 e acompanhou a construção do navio que viria a comandar. Lançado ao mar em 1970, era um navio imenso, para a época.

Depois veio a Frota Oceânica, onde comandou o “Frotabeira” por longo tempo. Na sequência, ele resolveu arriscar comandos em navios que faziam rotas no estrangeiro. Certa feita, uma tempestade diabólica no Golfo da Biscaia pegou o navio dele em cheio. Segundo seus relatos, uma infinidade de navios foi a pique naquela oportunidade. Às 4 da manhã, o imediato foi ao camarote dele e disse:
- Comandante, é melhor o senhor ir ao passadiço, porque a coisa está feia.

Foto: Acervo Luiz Paulo Beltrão Frederico.

Foto: Acervo Luiz Paulo Beltrão Frederico.

Quando lá chegou e viu o mar revolto, se surpreendeu. Ele tinha uma caneta Parker 51 que sempre carregava consigo e, em situações de perigo, jamais deixava transparecer que algo estava fora de controle. O que fazia era colocar a caneta na boca, soltando largas baforadas, como se fosse um charuto cubano. Enquanto estava ali, dando suas baforadas, uma onda estourou diretamente no passadiço. Ele não teve dúvidas. Deu ordens de virar todo o leme para um dos bordos e, por sorte, ou destino, conseguiu que o navio acabasse por dar a popa para o mar antes que uma segunda onda o pegasse pelo través.

Voltou ao porto de onde saíra, na França (não me lembro qual). O navio tinha a proa toda enterrada no mar. Uma daquelas ondas o pegara de jeito, e com tal força, que fez com que a chapa do convés de proa se abrisse como lata de sardinha. O mar começou a embarcar pelo porão de proa, fazendo com que essa parte submergisse. Ao menos um jornal da França noticiou aquele fato e a manchete era “Comandante salva navio e tripulação”. Ele guardou esse jornal em Nova Friburgo. Não sei se ainda anda por lá. Faleceu em 1992, em Portugal. Seu navio estava arrestado na cidade do Porto. Ele tinha 71 anos. Morreu trabalhando e, o que é uma bênção, fazendo exatamente aquilo que mais gostava.

Leia mais da série “As aventuras de Marujo nos sete mares”:
Capítulo 1 - Introdutório
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9

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