A história dentro d’água (6): comida de marujo

28 de fevereiro de 2017 em A história dentro d'água

 

Em junho de 1871 o 1º tenente da Marinha Filinto Perry apanhou papel e pena e se pôs a redigir um edital para “o fornecimento das praças” dos navios de uma divisão naval (1º distrito) estacionada em Sambaqui. Indicou a necessidade de açúcar branco, bacalhau, café, farinha, feijão, toucinho, carne seca, arroz, vinagre, sal, azeites doce e de luz, bolacha, pão e carne verde, “gêneros para o fornecimento diário”. A “dieta” seria composta por araruta, tapioca, cevadinha, açúcar refinado, bolachinha, aletria, chá, galinhas, manteiga, goiabada, marmelada e vinho de Lisboa.

Os interessados deveriam apresentar as propostas em “carta fechada” à bordo do encouraçado Brazil, onde seriam abertos na presença de testemunhas. Os gêneros precisariam passar por uma inspeção de “médicos e mais pessoas competentes, pesados e medidos no ato de entrega”. (Republica, 20 de junho de 1871)

Cruzador Almirante Barroso (1880-1893). Óleo s/tela, 1899/Museu Naval.

Cruzador Almirante Barroso (1880-1893). Óleo s/tela, 1899/Museu Naval.

Perry, que chegaria a contra-almirante em 1918, tornou-se uma celebridade na Marinha, dando nome a um navio e um submarino, cujo emprego pela Armada ele defendeu desde 1891. É dele a descrição do naufrágio do navio-escola cruzador Almirante Barroso, acidentado no Mar Vermelho, em 1892, durante viagem de instrução de guardas-marinha.

Em setembro de 1871 a mesma divisão naval permanecia estacionada em Sambaqui. O então capitão do Porto, B. A. de Moura, anuncia a compra de “pão e bolacha” para os tripulantes dos navios nos meses de outubro, novembro e dezembro daquele ano. (Republica, 22 de setembro de 1871)

 

Camarão branco. Foto: Celso Martins.

Camarão branco. Foto: Celso Martins.

A bordo

Frutas, verduras, peixes, crustáceos, pães e doces, bebidas, roscas e bijus eram produtos ofertados a bordo por moradores em suas canoas, saídos de Sambaqui e outras localidades. Em Sambaqui, segundo o historiador Sérgio Luiz Ferreira, essa foi uma atividade econômica importante na renda das famílias. A prática é muito antiga e citada por diferentes navegadores de passagem pelo abrigo da Ilha de Santa Catarina.

Não foi à toa que Manuel Manso de Avelar se fixou na região no início do século 18, porto natural e fonte de água potável de excelente qualidade (veremos isso mais adiante), parada obrigatória dos viajantes. Ele inaugurou a prática de comerciar a bordo, existente até meados do século 20. Isso significa que existiam alternativas de alimentação dos embarcados e marinheiros.

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