Milhares de foliões, zero ocorrência. Só alegria!

5 de março de 2017 em CARNAVAL 2017, Galeria de imagens

 

Por Edson Rosa/Especial para o Daqui na Rede

 

Centro histórico tomado por foliões. Fotos: Ayrton Cruz.

Centro histórico tomado por foliões. Fotos: Ayrton Cruz.

Cerca de 60 mil pessoas, segundo os organizadores, lotaram o centro histórico de Santo Antônio de Lisboa no último dia do carnaval do Baiacu de Alguém. PM calcula em 40 mil o número de foliões entre as ruas Cônego Serpa, Padre Lourenço de Andrade e transversais

 

O show da bateria do mestre Éder Leone, com direito a paradinhas e coreografias bem ensaiadas, foi o ponto alto do segundo dia de desfile do Baiacu de Alguém para encerramento do carnaval de Santo Antônio de Lisboa, entre a noite de segunda e a madrugada de terça-feira. Uma centena de ritmistas, entre homens, mulheres e adolescentes, deram o tom apoteótico para comemorar os 25 anos de fundação do bloco organizado e mantido pela comunidade local.

A multidão foi o maior desafio do Baiacu neste segundo desfile. Com as ruas Cônego Serpa e transversais completamente tomadas pelo público, o caminhão carregando os puxadores do samba teve muita dificuldade para completar o percurso de pouco mais de 500 metros, até as proximidades da igreja Nossa Senhora das Necessidades. Tanto que a presidente Daniela Cordeiro Schneider teve de evocar um “milagre”.

“Precisamos de muita calma, muita paz para atravessar este mar de gente. Mas, o Baiacu vai passar”, disse durante a saudação dos foliões para o desfile. A presidente ressaltou, ainda, o Carnaval cultural do bloco, com destaque ao samba de raiz, com ritmistas, bonequeiros, sambistas e compositores da própria comunidade. “Esse ambiente de solidariedade, de voluntariedade e alegria é o diferencial do Baiacu de Alguém”, completa.

E quem vibra com a força do Baiacu na passarela não imagina o que acontece na concentração do bloco, improvisada na casa de Daniela e Nelson Motta, antes e depois do desfile. “Aqui, a festa não tem hora para acabar”, grita o mestre de bateria.

 

O padre (Ricardo Cerillo ) e o capeta (Gustavo Rodrigues).

O padre (Ricardo Cerillo ) e o capeta (Gustavo Rodrigues).

O “padre” e o “diabo”

Na concentração, a destaque Larissa Silva ensaia os passos ao lado de Tobias Halm, que carregou a bernunça do boi de mamão durante o desfile. Para André Luís Viana, que dançou com o boi de mamão, a festa na concentração serve também para juntar latinhas e outros materiais recicláveis que, no dia seguinte, são transformado em dinheiro e alimento para casa. “Aproveito e deixo tudo limpo, a reciclagem é tudo no mundo de hoje”, ensina.

Voluntária do bloco desde outros carnavais, Rosita Schmidt incorpora a bruxa do amor e distribui maçãs encantadas aos foliões, enquanto Silvia Venturi, outra bruxa, ensaia voos rasantes na velha vassoura de palha. No mesmo grupo, Vera Regina Gonçalves da Silva incorpora Iemanjá, a rainha do mar, e Thereza Christina brinca de cinegrafista. “É preciso filmar tudo”, brinca.

Já na rua, a batida do Baiacu embala também a irreverência de Ricardo Verillo, o “padre” paulistano, e o “diabo” Gustavo Rodrigues, goiano que garante ser conhecido em Goiás como “matador de onças”. Sem nunca terem se visto antes, ficam amigos e saem juntos para pular atrás da bateria, ambos com um intuito em comum: conseguir uma parceira para seguir na folia até o raiar do dia.

 

“Espírito de Carnaval”

Quem foi pela primeira vez promete voltar em 2017. É o caso do casal Alessandro, 38, e Sarita Araújo, 33, que vieram de Palhoça e carregaram nas costas as filhas Laura, três anos, e Gabriele, 10. “Está muito bom, o respeito, os blocos, tudo”, diz o pai, antes de sair pulando com a pequena Laura.

Débora Tuyama e João Costa.

Débora Tuyama e João Costa.

Quem também aproveitou a folia de Santo Antônio foram os namorados João Costa e Débora Tuyama, que vieram de Curitiba. “Os blocos de sujo aqui são muito criativos, vem gente bonita e há segurança e respeito”, resume a garota.

De Porto Alegre, Juliana Pozzatti, foi levada a Santo Antônio pela amiga Silvia Miollo e pelo amigo Fabricio Bastos, que, basicamente, repetiram a opinião do casal paranaense. “Isso é muito bom, é o verdadeiro espírito de Carnaval”, diz Juliana.

Mais comedidos, Fabrício Luz, 31, e Karine Werlich, aqui mesmo de Florianópolis, passeavam em meio aos foliões com o filhinho Henrique, dois anos, relaxado no carrinho. “Voltaremos outras vezes”, diz ele.

 

“Muito legal”

Voltar em 2018 faz parte dos planos do “tigrão” Mateus Klein, que brincou muito ao lado da namorada Marianna Ravara e dos amigos Douglas Briske, Tatiana Ferrari e Leonardo Koller. Eles perderam as contas das latinhas de cervejas vazias que deixaram para trás.

Moradoras no Itacorubi, bairro vizinho, Lys Machado, a mãe Alda, a filhinha Mavie, além do menino Bernardo, não precisaram de álcool para brincar na rua Cônego Serpa. Bastaram as primeiras batidas da música do bloco Kombi Kebrada para a pequena Mavie pular do carrinho e, ainda meio desajeitadinha, ensaiar os primeiros passos no samba.

Vinicius Pereira, Gustavo Barros, Willian Montini, Loreane Andréa e Igor Lobo.

Vinicius Pereira, Gustavo Barros, Willian Montini, Loreane Andréa e Igor Lobo.

Não faltou animação também para os estudantes Vinícius Pereira, Gustavo Barros e Willian Montini, da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina). Eles trouxeram de Maringá (PR) os amigos Loreana D’Andréa e Igor Lobo. “Está muito legal”, resume a jovem paranaense.

Quem não precisou ir muito longe para curtir a folia de Momo foram as amigas Sonia Lacerda, Marta Bertelli e Lilian Bussollini. Moradoras de Florianópolis, elas chegaram cedo em Santo Antônio e se divertiram muito com o que viram na rua.

 

 

Kombi Kebrada.

Kombi Kebrada.

Kombi Kebrada garante energia antes e depois do Carnaval

Um empurrãozinho aqui, outro tranco ali, e lá vem a turma da Kombi Kebrada. Convidado especial, o bloco de sujos criado há 20 anos por funcionários da Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina), no Sul da Ilha, que andava meio esquecido, abriu em grande estilo a última noite do Carnaval de rua de Santo Antônio de Lisboa. A carroceria da velha Perua 1986, cor de rosa, sem motor, mas devidamente paramentada e equipada com oito potentes caixas de som, é o palco dos seis marmanjos transvestidos de mulher que dançaram freneticamente ao ritmo de marchinhas, axé, frevo ou maracatu no chamamento ao público para a folia que invadiu a estreita rua Cônego Serpa.

A passagem da Kombi Kebrada pelo carnaval de Santo Antônio não é por acaso. Trata-se de convite de agradecimento pela interferência dos eletricitários Renato Soares, 49, e Mário Jorge Maia, 57, na elaboração no projeto para substituição da rede elétrica da rua Cônego Serpa e entorno, em 2016. No mesmo ano, foi elaborado e executado projeto para acabar definitivamente com as constantes quedas de energia no centro histórico do bairro, principalmente em dias de festa.

 

Chapolim Colorado

“A rede elétrica era muito antiga, precária mesmo, e já não atendia a demanda do bairro e o crescimento populacional e do comércio local. A empresa aprovou o projeto, todo o cabeamento foi trocado e nunca mais faltou energia por sobrecarga em Santo Antônio”, explica. Funcionário do setor financeiro da Celesc e dirigente do Sinergia (Sindicato dos Eletricitários de Santa Catarina), Marinho, “o dono da Kombi”, é um dos primeiros a trocar a bermuda pela sainha justa, a camiseta pelo tomara que caia, ajeitar a peruca e subir no capô da Perua colorida e brincar o Carnaval como na adolescência.

“Carnaval não tem idade, não tem sexo. O importante é juntar a família, os amigos e se misturar à folia com respeito e alegria”, diz o avaiano Marinho, que dividiu a posição de destaque, sobre o teto da Kombi, com Nereu Pereira, 49, o torcedor do Figueirense que ficou famoso com suas aparições como dançarino solitário nas arquibancadas do estádio Orlando Scarpelli. “Infelizmente, hoje é o nosso time quem está dançando em campo”, reconhece o alvinegro, que, representando uma versão feminina do herói mexicano Chapolim Colorado, levou a netinha Luísa, cinco anos, para dividir a folia.

 

Empurrando a perua

Fundado no antigo camping da Celesc, na Armação do Pântano do Sul, há 20 anos, o bloco da Kombi Kebrada começou com 28 sócios, todos eletricitários. O nome, segundo Renato Soares, é referência à desculpa utilizada por eles quando se atrasavam na volta para casa depois da noitada de Carnaval. “Para amenizar a ira da mulherada em casa, a desculpa era uma só: a Kombi quebrou”, explica.

Ainda emplacada (LYD-3294), a Kombi parou de rodar no ano passado. “Agora é movida a muque, temos uma galera especial para empurrar”, diz Soares. Durante a viagem no guincho que atravessou de Sul a Norte da Ilha, a “velha senhora” perdeu parte da carroceria, mas não o suficiente para descaracterizar as papadas das enormes nádegas que funcionam como parachoque traseiro.

Atualmente, são seis sócios, todos moradores da Armação, que empurram a Perua com recursos próprios para repetir a folia a cada ano. Para o Carnaval deste ano, foram confeccionadas 200 camisetas, para distribuição gratuita entre familiares e amigos, com a Kombi estampada na frente, enquanto nas costas foliões e agregados carregam a mensagem: “Celesc pública, bom para todos – nenhum direito a menos”.

 

Trios elétricos completam a folia

Nos intervalos, o DJ Chero entrou em ação e não deixou a galera parar de sacudir. Mas, enquanto o Baiacu de Alguém esteve na concentração, quem conduziu a multidão pela passarela da Cônego Serpa, foram os trios elétricos da Banda Faraway e do Gazu, com marchinhas, samba de raiz, axé, frevo e até rock & roll.

A banda Faraway fez homenagem especial à turma da Gambarzeira, tradicional ponto de encontro dos boêmios do bairro, principalmente em dias de jogos de Avaí ou Figueirense.

Gazu e banda.

Gazu e banda.

A honra de encerrar o Carnaval de Santo Antônio coube ao trio elétrico do Gazu, o vocalista que trocou a banda Dazaranha pela carreira solo, e levou atração especial para a carroceria do caminhão: o guitarrista Luiz Meira. Para cumprir o horário estabelecido, 2h da madrugada, e evitar contratempos com a Polícia Militar, a dupla fechou o show com versão carnavalesca para o clássico “Vagabundo Confesso”. E foi bonito de ver artistas e foliões cantando em coro.

 

Segurança sem incidentes

Nenhuma briga ou qualquer outro incidente foi registrado pela organização e pelos policiais militares responsáveis pela segurança do Carnaval de rua de Santo Antônio de Lisboa. Quem garante é o tenente Araújo, do 21º BPM, que na sexta-feira comandou tropa de 40 homens e mulheres, a maioria cadetes do Centro de Ensino da Polícia Militar, com reforço do Pelotão de Cavalaria.

O único incidente foi contornado depois de reunião rápida entre o próprio oficial e um dos coordenadores da festa, o comerciante Edenaldo Lisboa da Cunha (Feijão). O problema começou quando a PM decidiu liberar a entrada de foliões portando bebidas alcoólicas no setor cercado e demarcado para a folia organizada, com barracas credenciadas que repassam porcentagem do que vendem à organização para cobrir parte das despesas com logística e infraestrutura de apoio.

Feijão argumentou com o tenente Araújo que a entrada de foliões com latinhas de cerveja poderia criar dois problemas para a organização. “Não é justo com quem está credenciado e ajuda na organização da festa. Além disso, poderia ser usada como arma ou para esconder algum tipo de droga”, disse. Depois de alguns minutos de impasse, o tenente Araújo orientou seus comandados a permitirem apenas a entrada de garrafas de plástico, de água mineral, mesmo que o conteúdo fosse cerveja ou algum tipo de bebida destilada.

 

*Edson Rosa é jornalista em Florianópolis.

CENAS DE UM CARNAVAL.

Santo Antônio de Lisboa (27.2.2017).

Fotos: Ayrton Cruz. Especial para o Daqui na Rede.

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