“DAS DORES” na estreia de Márcio Dison

23 de julho de 2017 em Artigo

 

Atlas Histórico e Geográfico Brasileiro, MEC/Fename, Rio de Janeiro, 1967.

Atlas Histórico e Geográfico Brasileiro, MEC/Fename, Rio de Janeiro, 1967.

Maria* nasceu escrava e não sabia que já haviam aprovado sua alforria. Dói não saber pintar como a senzala ou as pedras nos rins. Maria também seu nome escrito não conhecia. Apenas sabia porque lhe chamavam Das Dores, a Maria. Dói não saber construir como a chibata ou um parto, as dores do planeta em camas sem hospital.

Maria teve nove partos, mais que a muita fruta que sumiu. Mal expelia a criança voltava ao trabalho na louça da pia, nunca vazia. Das Dores ainda cuidou dos filhos do Senhor e pouco via os seus, uma dor que não mais lhe doía. Com a escrava e Maria faz-se hoje uma analogia. Com as mães castanheiras e seus filhos letras mortas sem digitais.

Das Dores da Pátria Educadora trabalha noite e dia em troca de 30 dinheiros que mal garantem uma corda para forca. Complementa renda com uma bolsa qualquer coisa mas não livra da crucificação diária seus cinco meninos, num insensato despertar que nada escreve ou lê.

Maria entrega as castanhas ao atravessador a preço de banana. Dói não ter mãos para plantar como os grilhões e sua fratura exposta e não tocar o violão que abraço como ser cobaia ou vestal. Maria ainda canta um lamento ininteligível, de todas as dores escravas que não justificam os meios e os fins.

Maria ressuscita a cada dia.

 

* Márcio Dison é jornalista em Florianópolis. “Das Dores” recebeu Menção Honrosa do Prêmio Literário Sérgio Farina, 2016, São Leopoldo/RS.

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