A história dentro d’água (16): Trem e porto

12 de agosto de 2017 em A história dentro d'água

 

Estuário do rio Ratones. Imagem: Google Earth.

Estuário do rio Ratones. Imagem: Google Earth.

Um porto na foz do rio Ratones até onde as mercadorias chegariam e partiriam de trem. É o que foi reivindicado em 1900 no jornal Republica (Órgão do Partido Republicano Catarinense), dirigido pelo jornalista José Boiteux, braço direito de Hercílio Luz. Um leitor que assina S. K., defende a proposta na edição do dia 10 de agosto de 1900.

A estrada de ferro em debate naqueles dias chegaria até o Estreito, motivando a reivindicação do porto em Ratones, encaminhada ao Congresso Nacional. “Do contrário, essa via férrea, beneficiando embora extraordinariamente ao Estado, trará indubitavelmente a ruína da nossa capital e o completo abandono de toda a ilha”, temia o autor.

A vantagem do porto em Ratones é a existência “logo a sua saída”, do “fundeadouro de Sambaqui, um dos melhores, si não o melhor, de todo o litoral catarinense; o qual, além de perfeitamente defensível, presta-se admiravelmente à fundação de um bom porto militar, com todas as dependências de um estabelecimento naval de primeira ordem”. (Republica, 10.8.1900). O projeto, sabemos, não vingou.

 

Memória

Apesar da distância no tempo a memória desse projeto continuou a ser reproduzida. Aldo Fabriciano Queiroz, por exemplo, escreveu sobre o assunto, publicado por Sérgio Luiz Ferreira*.

Imagem: Gazeta do Povo.

Imagem: Gazeta do Povo.

O governador Hercílio Luz, “compadre do meu avô materno, não saía de Sambaqui”, disse certa vez: “Eu vou construir a estrada de Sambaqui, não quero caminho de rato, quero uma estrada para passar veículos motorizados e uma via ferroviária para ser o porto de desembarque”, recorda Queiroz. Isso foi por volta de 1924. Logo Hercílio adoeceu, “foi para a Europa, e nosso Sambaqui ficou esquecido dos poderes públicos”. Por volta de 1947 “o governo federal mandou fazer um levantamento topográfico de toda a orla marítima de Sambaqui, foi feito o mapa com a planta do projeto, as pessoas da minha idade sabem disto”. Com a construção da BR-101, na década de 1960, “logo as navegações desapareceram e o projeto ficou engavetado”. (FERREIRA, org., 1998, p. 89-90)

 

Canal de navegação

O porto de Sambaqui continuou em voga. Em 1918 o já contra-almirante Henrique Boiteux vistoriou instalações navais, como o depósito de carvão de Sambaqui (localizado na Ponta).

O mesmo Republica de outubro de 1926 publica telegrama do juiz Henrique Lessa ao governador do Estado, Adolpho Konder, onde enfatiza os principais anseios daquele momento: “a bela Florianópolis ligada ao Norte e ao Sul por estrada de ferro; o Estado dotado de uma “base naval, o que não impedirá o aperfeiçoamento do Porto de Sambaqui”; e uma “usina siderúrgica na zona do carvão”.

Dois anos depois o geógrafo e oficial do Exército José Vieira da Rosa publica um artigo intitulado “Nosso porto”, onde fala da impossibilidade de ser mantido aberto o canal de navegação que demanda ao porto, devido as correntes marinhas. A única alternativa, segundo ele, seria a “construção de um molhe que ligasse o Pontal de Ratones [Daniela] e essas duas ilhas [Ratones Grande, Ratones Pequeno] ao Diamante”, próximo aos Guarazes. Ele acredita que dessa forma “as marés seriam encaminhadas, não perdendo força por esses recôncavos de Três Pontes, Saco Grande e Sambaqui”. (Republica, 19.2.1928, p. 2)

 

 

*FERREIRA, Sérgio Luiz. 300 anos de Santo Antônio e Sambaqui – Histórias quase todas verdadeiras. Florianópolis, Editora das Águas, 1998.

 

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