”E O AMOR LONGE”

14 de agosto de 2017 em Emanuel Medeiros Vieira

”E O AMOR LONGE”

(DEFINIÇÃO DE SAUDADE, OFERECIDA POR UMENINO AUTISTA)

         Para todos os autistas e suas famílias

 

Por EMANUEL MEDEIROS VIEIRA

 

Saudade é o amor longe: ele disse

E – quem sabe – perto

(Decerto)

Tão perto do coração – e no olhar

Autismo não é adjetivo

Concha escondida em mares interiores?

O que sabemos de nós?

O que sabemos da vida?

Luz – Cruz

Quem nos conhece?

Existimos no outro – e o outro “impõe” o que somos

A cela mental vira arquipélago – tantas ilhas não compartilhadas

(Mentira?)

Tudo será assim tão difícil?

Ou é fácil – apenas uma Travessia.

Não desistamos do amor: alguém apela – e a reivindicação soa melosa (como essa prosa presunçosamente poética)

Precisamos esperar o Inferno?

No porão há fresta de sol.

Ele é: mas o instante daquele sol amanhecendo na Lagoinha, no Parque da Cidade da última capital do país, aqui na “Graça”, na primeira sede do Brasil (outro amor), contemplando o sol deitando-se no mar na Ilha de Itaparica, na Ponta do Humaitá, no Gazômetro, no Sul (também) do meu coração, na Lagoa da Conceição (da minha mítica ilha) – tudo é finitamente belo

Inunda-me de uma alegria sem sentido (com todo o sentido)

Um poema nos tira do inferno.

O terror não é ir embora – passagem é vida da vida

Outros nos cobram para sermos o que eles querem – e não nascemos escravos –

fomos ficando escravos

A mente que sabe que a saudade é “o amor longe

não mente

Doloroso mundo que demoniza a diferença

O estigma é a serpente (no ovo)

E dele escapa todos os dias – não se iludam: a guerra é sempre

Esse é o não-mor distante – fera, maldição.

(Os ventos ventarão, carregando-nos definitivamente para a Terceira Margem do Rio)

É só isso.

Te amo menino – pela descoberta

E não te conheço

Talvez estejas a quilômetros de distância

Pois amor é isso também – longe, lonjura, oceano e caravela

(Salvador, agosto de 2017)

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