A história dentro d’água (Fim): Calha d’água

3 de setembro de 2017 em A história dentro d'água

 

“Neste excelente porto, um dos melhores do Império, continua a funcionar com regularidade o importante encanamento sobre largos trilhos de ferro que ali mandei construir”, escreveu em 1887 o almirante João Justino Proença, então Capitão do Porto de Desterro/Florianópolis, citado por Virgílio Várzea. “O porto de Sambaqui, só por esse recurso, fica com uma importância ainda superior à que já tinha por suas condições topográfica e hidrográficas”. (VÁRZEA, 1985, p. 108)

O antigo morador Aldo Fabriciano Queiroz diz que essa aguada “se lançava até 500 metros da praia para fornecer os navios”. A antiga caixa d’água ainda existe e abastece dezenas de moradores das imediações, situado em terreno que pertence ao município. (FERREIRA, 1998, p. 88)

Segundo o jornalista Raul Longo, a qualidade da água de Sambaqui era apreciada em Santos-SP, muito disputada quando chegava no porto em alguma embarcação. “Faziam até encomenda da água”, garante.

“Água de Sambaqui vem das nascentes de um elevado monte colocado cerca de 500 metros da praia, por um encanamento mandado construir pelo almirante Justino de Proença”, indica Várzea (p. 108).

Em relatório de 9 de março de1882, o desembargador e presidente da Província, João Rodrigues Chaves, fala em encanamento “todo de ferro, com 120 metros de extensão, partindo de um reservatório, feito junto a uma cascata”, destinado a “fornecer água aos navios da Armada”. Trata-se de um “melhoramento muito útil, realizado com pouco dispêndio, e que evitará as despesas que durante muitos anos se tem feito com aguada para os nossos vasos de guerra”. O dispositivo, assegura Chaves, poderá servir “fácil e abundante aguada a qualquer esquadra, por maior que seja.” Detalhe: o custo da obra “não excederá a 1:000$000 réis”, ou seja, um conto de réis. Em fins de1889 o menor salário mensal no Brasil era de 25$000 réis. Uma professora primária recebia cerca de 45$000 réis, enquanto o salário mensal de um professor secundário alcançava 167$000 réis. O maior salário mensal na época era de 300$000 réis. (FONTE)

 

Carvão

Aldo Fabriciano Queiroz também fala sobre o depósito de carvão que existia na Ponta do Sambaqui, mantido pela Marinha. “Para o desembarque [do carvão] foi construído um trapiche”, usado também no “para abastecer os navios movidos a carvão mineral”. As qualidade do porto atraíram as atenções da Alemanha na Segunda Guerra. “No costão conhecido por Raspadeira tinha umas pedras marcadas pelos alemães”, antes dos conflitos. “Um sargento dos Estados Unidos que veio dar aulas para os pescadores explicou para nós que a Ponta do Sambaqui era a menina dos olhos dos países do Eixo” [Alemanha, Itália, Japão]“. Por esse motivo “em frente à Raspadeira permaneceu um hidroavião americano, e na barra do mar um navio de caça”, também dos EUA. (FERREIRA, 1998, pg. 88)

No tempo da Segunda Guerra a orla era vigiado permanentemente. Havia o temor de um ataque de submarinos ou paraquedistas alemães. “As luzes da Capital eram desligadas para não orientar o inimigo”, destaca Queiroz, lembrando o caso de um soldado da PM encarregado de vigiar uma ponta de pedra junto ao restaurante de Antônio Amaral. Cansado, o policial pegou no sono “com fuzil e tudo”, inspirando um pescador que passou pelo local a tomar-lhe “a roupa e o quepe”, levando o material ao comando no casarão do Porto da Alfândega. “Não demorou muito chegou o nosso soldado correndo esbaforido: – Comandante, fui assaltado por um alemão e ele carregou o meu rifle e quepe”. (FERREIRA, 1998, pg. 89).

 

Importância

Cerca de três anos após a inauguração, o “encanamento d’água em Sambaqui”, achava-se em “perfeito estado e fornece boa água e em abundância aos navios de guerra, nacionais e estrangeiros, que ali se abastecem”, informa o vive governador Manoel Pinto Lemos em 1885. “”O encanamento é feito de trilhos de ferro com concavidade para cima e descansa em fortes pilares de alvenaria de cimento, em terra, e estacada de madeira no que avança para o mar”.

Em 1887 o capitão do porto relata do presidente Francisco José da Rocha: “Neste excelente porto, um dos melhores do Império, continua a funcionar com regularidade o importante encanamento sobre largos trilhos de ferro que ali mandei construir. A água é de excelente qualidade, proveniente de alta montanha coberta de mata virgem. O porto de Sambaqui, só por esse recurso, tão necessário aos navegantes, fica com uma importância ainda superior à que já tinha por suas condições topográficas e hidrográficas”. (Relatório Francisco José da Rocha, 1887)

 

A aguada

Manancial histórico em Sambaqui é isolado por muro – Responsável pela obra em área particular garante manutenção do acesso público à água“. Matéria de 2003 no jornal AN Capital/A Notícia.

 

Fontes

- Relatório com que o Exm, Sr. Desembargar João Rodrigues Chaves, passou a administração da Província de Santa Catarina, ao Exm. Sr. Doutor Joaquim Augusto do Livramento, 3º Vice-Presidente. Cidade do Desterro em 9 de março de 1882. Item “Encanamento d’Água em Sambaqui”. Documento anotado por Edson Luiz da Silva/Velho Bruxo no Arquivo Público de Santa Catarina e cedido ao Daqui na Rede.

- Relatório com que o Exm, Sr. Coronel Manoel Pinto Lemos, 1º vice-presidente, passou a administração da Província de Santa Catarina, ao Exm. Sr. Doutor José Lustosa da Cunha Paranaguá. Cidade do Desterro em 9 de março de 1882. Documento anotado e por Edson Luiz da Silva/Velho Bruxo no Arquivo Público de Santa Catarina e cedido ao Daqui na Rede.

- FERREIRA, Sérgio Luiz. 300 anos de Santo Antônio e Sambaqui – Histórias quase todas verdadeiras. Florianópolis, Editora das Águas, 1998

- VÁRZEA, Virgílio. Santa Catarina – A Ilha.

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