Emily

14 de setembro de 2017 em Emanuel Medeiros Vieira

 

Emily. Three Lions/Getty Images.

Emily. Three Lions/Getty Images.

Emily

 

Por Emanuel Medeiros Vieira

 

“A memória tem frente e fundos/Como se fosse uma casa;/Possui até mesmo um sótão/Para refugos e ratos./E o mais profundo porão/Que um pedreiro já tenha escavado –/Há que estar atento para não ser/Por suas dimensões obsedado”. (…) EMILY DICKNSON (1830-1886)

 

Que tal tentar um poema sobre Emily?

Li, reli. Li mais. Um modesto artigo?

Nesse momento, um pássaro canta perto da minha janela, céu azul, Mais um dia na vida – na nossa vida, no planeta, no mundo – E eu penso em todos os criadores que foram esquecidos ou pouco Lembrados em vida. Não é um poema.

Certa vez, tentei um: “Lendo Emily Dickinson”.

 

Tentarei um breve artigo: foi somente após a morte de Emily que sua família descobriu os 1.775 poemas que compõem – lembram os estudiosos da poeta, como o escritor Ivo Bender – que traduziu (com profundo esmero) seus poemas para o português.

Nunca foi publicada em vida, “a não ser em colunas literárias de jornais e, mesmo assim, rarissimamente” .

Ela manteve correspondência com um crítico chamado Thomas W. Higginson, para o qual a poeta pediu avaliação do seu trabalho.

Ele foi o seu primeiro editor, mas não gostou da escrita de Emily.

Ao publicar a sua primeira antologia, Higginson “corrigiu” os poemas.

Já em meados do século XX, “os estudiosos da obra de Dickinson empenharam- se na busca da forma original de sua escrita”.

A restauração definitiva de seus poemas deve-se a alguns destes analistas,   principalmente Thomas H. Johnson.

 

Os temas de sua obra? É claro que não é o assunto em si que importa, mas a maneira de trata-lo. Na “Tragédia Grega”, por exemplo, encontra-se tudo sobre a condição humana.

Creio que amor, morte e desespero – como assinala Ivo Bender – foram as suas principais obsessões.

“Banir a mim de mim mesmo,/Tivera eu esse dom!/Inexpugnável fosse a minha fortaleza,/Ante toda audácia”. (…)

Seria preciso transcrever muitos outros versos. Mas o meu textoficaria longo, ainda mais nos tempos de internet – da fúria, da ansiedade, da impaciência (e do dogmatismo, maniqueísmo e fundamentalismo).

Escreveu um dos maiores críticos dos tempos atuais: “À exceção de Kafka, não lembro de nenhum escritor que tenha expressado o desespero com tanta força e constância quanto Emily Dickinson”. (Harold Bloom).

Hoje ela é considerada uma das grandes vozes da literatura norte-americana, com a estatura de um Walt Whitman (1819-1892).

Emily escreveu:

“Se acaso já esqueceram,/Ou estão agora esquecendo/Ou se jamais relembraram/ Melhor é não saber”. (…)

(Brasília, setembro de 2017)

 

 

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