O Bosque dos Sonhos de Chapeuzinho

30 de setembro de 2017 em Artigo

 

Por Marcio Dison*

 

Um sonho é uma fantasia que queremos vestir de realidade para provar os sabores da vida. O passado é um sonho que já se foi. Até sonhos de padaria não são mais os mesmos depois que um tempo passa. Como o bosque onde a Chapeuzinho Vermelho encontrou o Lobo Mau. O despertar da leitura é como um sonho – sonhá-lo lúdico porém vigoroso é o desafio que os mestres sonhadores apresentam a cada ano a novos deslumbrados.

A trilha fechada e as árvores frondosas estão apenas no pensamento da Chapeuzinho. Até o caçador sumiu porque a caça foi proibida e mesmo não haveria o que caçar porque um dos últimos animais o carro acabara de atropelar na trilha que virou rodovia. Vovozinha restou despejada pela duplicação e mora no asilo, para onde levou o empalhado Lobo Mau. Assim como se assusta ao ver uma galinha, Chapeuzinho do presente conhece dos Três Porquinhos apenas o presunto. Seu pet é um coelho anão que não é o da Páscoa.

Até os verdadeiros sonhos andam raros e sem graça. Porque sonhos alimentam-se de experiências do cotidiano, carregam vestígios do real que dá sentido à vida. O sonho é o cérebro trabalhando enquanto dormimos. Despejando teorias estranhas para dar prazer a nossa existência vã. É o que o próprio nome diz – um desejo, anseio, objetivo a alcançar, por vezes engodo, arapuca. Sonho é o desejo realizado com a força da mente. Sonho te obriga a usar a cabeça. Como tudo na vida, o sonho também se realiza com mais facilidade quando sonhado coletivamente.

O sonho vem das cavernas, é mais velho que o jequitibá. Se ruim, pode ser um sonho abaeté. O homem é um animal, às vezes pior que o Lobo Mau. Como tem uma cabeça que pensa mais do que pode explicar, transformou medo em fantasia. Com ela, prosperou o sonho. Este sonho tem um bosque, como há muito não se mais vê. Tem gambá, lagarto, saracura. Árvores, arbustos, insetos e pássaros em fartura. Qualquer Chapeuzinho vai deliciar-se com as frutas que encontrar: banana, mamão, laranja, pitanga e ananá, carambola, graviola e jambolão.

- Para que servem estes olhinhos enormes, divididos entre o medo e a curiosidade? – Perguntou o Lobo, que ela ainda não sabia se era Bom ou Mau.

- Para olhar, analisar com a mente e libertar a criança enjaulada no quarto escuro da imaginação. – Respondeu a Chapeuzinho, ludibriando o Lobo ao encaçapar 10 sequências no Bilboquê.

Aqui nunca chove demais nem faz sol de menos. Os bichos são inofensivos e vivem em harmonia com as crianças. Sim, só com elas porque no bosque dos sonhos não existem adultos ou idosos e ninguém sofre ou morre. Afinal, trata-se de um sonho bom.

No bosque há ninhos com ovinhos ou filhotes ao alcance das mãos. E há trilhas em que o medo não tem vez porque a guia é uma bruxa boazinha que se chama Maga Sem Lógica Ecológica. Ela garante: Bicho-Papão, Lobo Mau e Bruxa Malvada são fantasias da sua cabeça:

- O Homem é o Grande Mal!

 

*Márcio Dison é jornalista e professor em Florianópolis-SC.

Fonte da imagem

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